2004-05-02
12:04 Malaai cuchi laagyo kinabane yo desh ekdam ramro chha. Mero bijarma ek borsha shabai manche Nepalma aune. Nepalko manche derai ramro chha ra malaai waahaa: maayaa lagyo. Mero ghau:ko ketaaketi ramailo chhan ra malaai, aeko pachhi, duca lagyo. Tora moile dui wata patak pheri jane. Mero aamaalaai ra mero bubaalaai poni duca lagyo. Ahile ma Kathmanduma tin din boschhu. Bali ma ra Alex Pokhara jane ra das din trekking garne. Pachhi, Chitwanma, Noemi bia garne ra hami ti:han jane. Chitwan shundar chha. Pachhi hami Chitwanbata Kathmandu pharkine, Alex eklaai Portugal jane ra ma Kathmanduma ek moina ra pandra din bosne. Kathmanduma ma yoga ra meditation garne. Moile Tibet jane ki na jane, taha chhaina. Pachhi, ma Portugal pharkine ra mero yatra sidio.

12:01 Recebo varios emails de amigos que dizem que eu sou maluco em estar a fazer o que estou a fazer. Hum... nao compreendo! Eu acho que quem e' maluco e' quem se deixar morrer sem visitar o Nepal!

10:38
O Hori e' um "Conan o Rapaz do Futuro" ca' da zona. Anda sempre descalco a correr e a saltar por todo o lado. Tem 10 anos e uma personalidade selvagem que tem tanto de maravilhosa como de assustadora. E' de uma das familias mais pobres da aldeia e pertence 'a casta dos intocaveis, a mais baixa que conseguiram inventar. Finalmente este ano a familia tem dinheiro suficiente para que ele va' para a escola. Vai para a classe 1. Ofereci-lhe um caderno e imensos lapis de cor. Quando cheguei 'a aldeia ha' dois meses atras fugia de mim cheio de vergonha quando tentava falar com ele. Hoje em dia vem ter comigo, da'-me a mao e leva-me a passear pela aldeia para me ensinar o nome das arvores em nepales. Somos amigos!
Uma linda menina que mora na aldeia mesmo ao lado da nossa.
Nao e' bonita esta aldeia? Fica mesmo ao lado da minha. Na minha aldeia, Bawn Tar, praticamente so' moram Brahmins, a casta mais alta. Nesta aldeia praticamente so' moram intocaveis. As duas aldeias estao tao proximas que os moradores desta aldeia consideram as duas sao apenas uma, Bawn Tar. Ja' os moradores da minha aldeia, para marcarem diferenca fazem questao de chamar a esta aldeia Chepang que e' o nome da casta.
Pois e', na minha aldeia a marijuana cresce por todo o lado! E' so' apanhar, secar e depois nao fumar. Aquela ali nao e' uma flor. E'' a Noemi toda contente!
Bolas, nao tenho nada para dizer sobre esta fotografia. Gosto das cores.
Esta menina alem de extremamente pobre e' muita querida e tirei-lhe imensas fotos lindas.
Na escola do meu amigo Kesab, sempre que eu aparecia 'a porta das aulas era isto. Uns curtidos!
O Hori deretido de felicidade por receber um estojo com imensos lapis de cor, canetas, um afia e uma borracha! Ele olhou para o pai e disse: "Masanga kalam chha!!!"
A irma do Hori e' tao bonita, nao e'?
Vizinha. Tem 13 anos e e' absolutamente linda de morrer.
A mae do Niroj e outra senhora a fazerem uns fritos muita bons.
Na verdade esta foto foi o que se pode arranjar. Eu queria uma foto do galo. Andaram uns 5 putos a correr atras do gajo durante uns 10 minutos mas ele nao se deixou apanhar. Olha,... contentei-me com a galinha.
Pujaa em casa do Kesab. As fotos ficaram um bocado ranhosas mas a cerimonia e a festa que se seguiu foram inesqueciveis. Todos os presentes deliraram a ver-me tentar dancar sem grande sucesso ao som da musica em homenagem ao deus Narana.
Waahaa:ko naam Trishana ho ra waahaa mero saathi ho. Ou seja, o seu nome e' Trishana e e' minha amiga. Durante as primeiras semanas julguei que era um rapaz mas 'as tantas vi-a tomar banho.
He, eh,... isto foi eu no momento de despedida no dia em que terminou o meu voluntariado na aldeia e regressei a Kathmandu. Toda a gente me colocou um colar de flores, tikka na cara, flores no cabelo e deram-me montes de bananas e um pepino para a viagem.

10:31 Ha' inevitavelmente um choque enorme entre as regras de etiqueta ocidentais e as nepalesas. O meu primeiro impulso foi continuar a usar as minhas regras e aceitar e compreender os nepaleses como eles sao tentando evitar ao maximo criticar apenas porque e' diferente. No entanto ha' uns dias cheguei a uma conclusao que tem tanto de interessante como de polemica. E' que a boa educacao e as boas maneiras sao nada mais nada menos que uma linguagem de comunicacao. E como tal so' faz sentido existirem quando existe um emissor e um receptor. Quando alguem janta sozinho em casa nao esta' preocupado se faz barulho com a boca a comer nem se mete os cotovelos em cima da mesa nem se esta' a usar o talher certo ou o copo certo nem tem pudor em cuspir as espinhas ou os ossos para o prato. Age assim porque sabe que nao existe ao pe' nenhum receptor. Da mesma forma em Bawn Tar nao faz absolutamente sentido nenhum evitar mandar arrotos, tirar macacos do nariz 'as escondidas, evitar cuspir, etc... porque nao ha' aqui ninguem que fale esta linguagem. Esta conclusao nao e' mais que a tomada de consciencia do proverbio "Em Roma se romano". Mesmo assim ainda vejo algumas razoes para preservar as "minhas" boas maneiras:
  • Nao perder o habito para quando regressar ao meu pais nao ser considerado mal educado;
  • Continuar o faze-lo impelido inconscientemente pelo habito;
  • Receio que por alguma razao apareca de repente outro ocidental que possa fazer um julgamento negativo a meu respeito 'a luz da linguagem de boas maneiras que ambos partilhamos;
  • Ter legitimidade para poder dizer aos nepaleses como sao a vida e os habitos em Portugal
Ha' ainda uma outra razao mas com a qual nao me identifico que e' fazer questao de ser "bem educado" 'a luz dos costumes ocidentais por sentir superioridade civilizacional que desta forma e' imposta e que implicitamente demonstra tambem desprezo pelos nepaleses tendo assim uma intencao de humilhacao.

10:30 Acabou o meu periodo de voluntariado. Durante dois meses: nao me penteei, praticamente so' usei chinelos, usei sempre os mesmos calcoes, so' considerei que uma t-shirt estava suja depois de ela mudar de cor ou consistencia, tomei banho algumas vezes por semana usando sempre cuecas e 'a frente de toda a gente, lavei 'a mao a minha propria roupa que mesmo depois de lavada ficou sempre ainda um bocado suja, o meu rabo nao viu papel higienico, comi apenas arroz com legumes duas vezes por dia, nao fiz qualquer tipo de desporto ou actividade fisica para evitar que a minha barriga continue a crescer, nao tive uma conversa em portugues, nao senti atraccao sexual por ninguem, todos os dias fui surpreendido por alguma coisa, todos os dias aprendi alguma coisa, bebi leite acabadinho de sair do bufalo logo pela manha e antes de deitar, dormi embalado por milhares de grilos, nao atendi nenhum telemovel, durmi numa cama dura como uma tabua (porque e' uma tabua), coleccionei flores e sorrisos de criancas, nao tive medo de baratas, convivi com escorpioes, dei e recebi quantidades enormes de amor por dia, tirei 20 ou 30 fotos por dia, tentei decorar 10 novas palavras nepalesas por dia, vivi so' de dia e dormi so' de noite, quase nao disse palavroes seja em que lingua for, me tentaram casar com uma nepalesa diferente todos os dias, so' vi verde 'a minha volta, so' comi comida saudavel, nao comi carne de vaca nem tenho saudades, nao entrei num supermercado, nao fui a uma sala de cinema com stereo surround ou THX, tive saudades da minha cama.

10:30 No Ocidente quanto mais nos afastamos do chao mais avancados e civilizados nos sentimos. Quase nunca andamos descancos, moramos em predios altos, sentamo-nos em cadeiras, comemos em cima de mesas, temos semper tudo limpo e aspirado, etc... Que grande ilusao!...

10:24 A relacao dos nepaleses com a agua e' radicalmente diferente da nossa. Nos, quando tiramos agua da torneira predestinamo-la consoante o recipiente onde a colhemos. Se for num copo e' para beber, se for no lava-loicas e' para lavar a loica, se for na retrete e' para limpar a retrete e se for no lavatorio e' para lavar a cara ou bochechar ao lavar os dentes. Estranhamos se, depois de sair da torneira, alguem decidir por alguma razao utiliza-la para outro fim que nao o inicialmente planeado. Ha' ate' quem va' ao comulo de ter nojo de beber agua da casa-de-banho e so' beba agua da cozinha como se esta adquirisse ja' naturezas diferentes conforme o cano em que corre. No Nepal nao! No Nepal e' bem mais simples: agua e' agua. Em primeiro lugar a agua bebe-se a partir de qualquer recipiente: copo, jarro, taca, garrafa, tijela, prato, etc... Em segundo lugar como nunca ninguem toca com os labios no recipiente por uma questao de higiene, entornando a agua directamente na boca, toda a gente partilha sem qualquer problema a agua do recipiente. Em terceiro lugar, a agua de um unico copo pode servir para eu beber agua, para a "minha mae" lavar um pepino, para o Manish lavar as maoes e a seguir para eu beber novamente sem que realmente nenhum problema dai ocorra. E se pensarmos um pouco nisto estes tres costumes fazem todo o sentido e e' algo de que vou certamente sentir falta quando regressar a Portugal.

2004-04-30
12:21 Da minha aldeia ate' Benighat ainda sao uns 500m por isso o "meu pai" pagou a um senhor para carregar a minha mala. Tentei explicar-lhe que eu podia facilmente transporta-la mas o "meu pai" insistiu e por isso tive de aceitar. Aqui nunca e' boa politica insistir muito contra pois 'as tantas podemos estar a ser indelicados. Alem disso este senhor e' muito pobre e assim sempre recebe algum dinheiro. Quando ele pegou no saco e comecou a caminhar eu fui atras dele mas o meu pai impediu-me e disse para eu tornar a entrar na casa. Entramos, aguardamos sem qualquer razao aparente por um minuto ou dois e depois tornamos a sair. Ele depois explicou-me que o carregador vai sempre 'a frente isolado e nos vamos a seguir um pouco afastados para marcar a diferenca. E' horrivel mas e' assim... Ontem a filha dele veio a nossa casa receber um caderno que lhe ofereci e quando lhe disse para entrar ela recusou-se e os outros miudos disseram-me para nao insistir. E' que a familia deles pertence 'a casta dos intocaveis que e' a casta mais baixa que existe e como tal estao proibidos de entrar dentro de casas Brahmin que e' a casta mais alta que existe. E' horrivel mas e' assim... Em minha casa ha' dois ou tres pratos onde nao podemos comer pois sao reservados para dar de comer 'as pessoas de casta mais baixa. Disse ao meu pai que nao gostava nada desta coisa das castas porque achava que todas as pessoas sao iguais e ele explicou-me: "Tens de compreender que no teu pais nao ha' castas e as pessoas sao todas iguais, mas no Nepal ha' e as pessoas sao todas diferentes. E' assim que as coisas sao. No entanto a mentalidade lentamente vai evoluindo: O meu avo e o meu pai nunca tocariam num intocavel, eu ja' toco sem qualquer problema, o meu filho ja' os abraca, quem sabe o seu filho ou o seu neto ja' os deixe entrar em casa". Fiquei sem resposta. Embora o sistema de castas seja uma coisas horrenda, que que atire a primeira pedra quem tiver a pretencao de que se fosse nepales nao o adoptaria como todos os outros. Que atire a primeira pedra quem achar que, se vivesse em Portugal ha' 500 anos e fosse rico, seria contra a escravatura.

11:47 No ultimo dia que estive na aldeia distribui o resto da roupa, cadernos, canetas e livros de pintar que trouxe de Portugal oferecidos pela Maria e pela Regina e seus amigos (obrigado!). So' aqui estando se pode compreender a importancia que um simples caderno pode ter. Ao longo dos 2 meses distribui 30 camisinhas de crianca e senti que cada uma que ofereci fez realmente diferenca na vida da crianca que a recebeu. Quando ja' so' tinha dois cadernos foi muito dificil e de uma enorme responsabilidade escolher quem os ia receber!

11:40 A minha mae chorou durante 2 dias a plenos pulmoes. Primeiro nao percebi o que se estava a passar mas depois o Manish explicou-me que ela chorava de tristeza por eu me ir embora! E' uma querida!!! Passou os ultimos 20 dias a dizer que estava triste por eu me ir embora e eu tentei explicar-lhe que nao precisava de estar triste porque eu ainda la' estava, mas de nada serviu. O momento da despedida foi totalmente antagonico pois como os homens nao abracam nem beijam as mulheres so' lhe disse adeus e pronto e ela olhou para mim com uma expressao perfeitamente indiferente como se eu so' fosse ali e ja' voltasse. Quem nos visse de fora e estivesse fora do contexto diria que ela se estava nas tintas para o facto de eu me estar a ir embora. Na verdade grande parte das mulheres nepalesas enquanto jovens riem-se e divertem-se muito mas quando casam deixam de rir e passam grande parte do tempo com um ar de sofredoras e amplificam os problemas carpindo e queixando-se constantemente de tudo. E' muito estranho.

11:14 Pronto, acabou o meu periodo de voluntariado. Ontem regressei a Kathmandu e estou oficialmente de ferias. Abandonei a aldeia com um misto de tristeza, por deixar um lugar tao maravilhoso, e ansiedade, pois amanha chega o Alex e vamos fazer um trekking no Anapurna durante 10 dias!

2004-04-22
09:59 Em Portugal e no ocidente em geral guiamo-nos pela dualidade limpo/sujo e gostamos sempre de ver tudo limpinho. No Nepal guiam-se pela dualidade puro/impuro e, mesmo que esteja tudo sujo, sabem sempre se esta' puro ou impuro. Eu continuo a querer viver segundo o sistema do limpo/sujo porque fui habituado a ele mas tenho de admitir que se calhar este sistema e' mais inteligente. E' que muitas vezes pode estar limpo e nao estar higienico.

09:54 Gramaticalmente o nepales e' muito facil mas foneticamente e' extremamente dificil. E' que todos os sons das vogais e consoantes estao a meio caminho entre os nossos sons. Por exemplo: o W nepales esta' a meio caminho entre o nosso W e o nosso B e o D nepales esta' a meio caminho entre o nosso D e o nosso R. Eles dizem dois sons que me soam quase iguais: Cha e Chha e depois eu tento repetir e eles passam o tempo a dizer "Nao e' Cha, e' Chha" e eu fico na mesma porque para mim o Cha e' igualzinho ao Chha. E' deveras frustrante!

09:52 Atencao senhoras e senhores, meninos e meninas: Decidi aprender nepali script, ou seja, o alfabeto nepales!! Quando aqui cheguei nem sequer o considerei e aprendi apenas a falar. Entretanto um professor disse-me que eu conseguia aprender num mes e decidi que nao tinha nada a perder. Agora passo o dia fascinado a recitar letras atras de letras com uma melodia que eles ensinam aos miudos de 5 anos para ser mais facil de decorar: Kho Khho Gho Ghho Nga, Cha Chha Jha Jhha Yna, Ta Tha Da Dha Ehra, etc... Agora a minha irma de 5 anos identifica-se imenso comigo porque temos ambos trabalhos de casa iguais: desenhar e recitar centenas de letras nepalesas repetidamente ate' 'a exaustao. Sao 36 consoantes, 12 vogais e uma porrada de acentos. Ainda so' aprendi 20 consoantes. A escrita nepalesa e' a coisa mais linda deste mundo e esta' para o nosso alfabeto como uma pintura de Van Gogh esta' para um quadro de um restaurante chines.

09:40 A minha vida como voluntario e’ bastante relaxada pois para alem das duas aulas de ingles que dou diariamente tenho o resto do tempo livre. Como tal, alem de passear, aprender nepales e mil outras coisas, tenho lido livros que nunca mais acaba. Leio compulsivamente livro atras de livro. Para ser verdadeiramente sincero comigo mesmo, tenho de admitir, bastante contra a minha vontade, que gosto mais de ler livros do que de ouvir musica (gulp!). Conclusao deveras assustadora para um musico. Desde que cheguei a Bawn Tar ja’ li mais de 2000 paginas de uns 8 livros! O mais engracado e’ que por uma sorte danada (ou porque foi o Fabian que me aconselhou quase todos) os livros foram todos absolutamente fantasticos.

09:40 A UN, estando perfeitamente a par das accoes terroritas do exercito propos ha' 3 ou 4 dias que uma comissao de investigacao fosse ao Nepal para tirar a limpo o que o exercito esta' a fazer. Adivinham quem votou contra?... os USA!! Os USA deixam mais uma vez o mundo de boca aberta com a sua absurda e ridiculamente incoerente politica externa. O embaixador americano deu a seguinte explicacao para o voto contra: nao concordamos com parte do texto da proposta. A verdadeira razao e' mais simples e evidente: os USA fornecem armas ao exercito nepales. Ora era muita foleiro se a comissao de investigacao descobrisse que o exercito que actualmente detem o record mundial de mais crimes contra os direitos humanos andasse ha' anos a ser treinado e armado pelos US of A que seriam assim CUMPLICES de actos de terror! E nao so'! Faria deles CULPADOS de violarem uma lei da UN que diz que nao e' permitido a nenhuma nacao fornecer equipamento militar a outra nacao cujo exercito viole os direitos humanos. Assim, votando contra a comissao de investigacao, os USA continuam sem ser cumplices nem culpados! Simples e eficaz!

09:20 A situacao politica esta' a aquecer de dia para dia. A opiniao geral e' que o rei esta' por um fio e que se nao muda de atitude vai desta para melhor. Quanto mais aprendo sobre este pais mais compreendo os maoistas. Claro que nao concordo com os seus actos terroristas mas parecem ser os unicos com um projecto politico serio, alias, parecem ser os unicos com um projecto politico! E surpresa das surpresas: eles sao chamados de terroristas mas o exercito nepales, sob o comando directo do rei, comete atrocidades tao graves ou piores! Por causa das actividades do exercito o Nepal esta' neste momento em primeiro lugar na lista de paises onde os direitos humanos sao mais violados! E' verdade, o exercito nepales quando faz uma investida contra uma aldeia, coitado, nao consegue evitar violar as mulheres todas que encontra 'a frente e cometer uma serie de outras atrocidades ainda piores contra os inocentes camponeses que apanha. Tss tss... E julgava eu, pelas poucas noticias que vao ate' ao ocidente, que os maoistas e' que sao os maus da fita! E' que isto e' o Nepal, e o Nepal e' a Asia, e na Asia a vida humana pouco valor tem quando toca a politica. Varias vezes durante a Historia do Nepal o rei mandou matar 'as 50 e 60 pessoas so' porque nao concordavam com ele ou porque hipoteticamente poderiam constituir uma ameaca. Porque e' que este rei havia de fazer diferente so' porque estamos no seculo XXI? Afinal no Nepal as tradicoes estao vivas!

09:10 No livro "Travels of Marco Polo" que foi escrito no seculo XIII, e' feita uma descricao dos Brahmin, a casta superior e que e' acasta dos padres no sistema de castas Hindu. A minha familia nepalesa e' Brahmin e quase fiquei arrepiado ao ver descritos com imenso rigor e pormenor, neste livro escrito ha' mais de 700 anos, imensos costumes e tradicoes que vejo acontecerem diariamente na minha casa. E' incrivel como esta gente maravilhosa tem conseguido manter viva e essencialmente inalterada uma tradicao complexa, rigorosa e exigente com esta que tenho vivido, ao longo de seculos e seculos!

09:09 Agora sou um Barao do Futebol!!! Houve um campeonato aqui ao pe' e eu patrocinei uma equipa porque eles nao tinham dinheiro para participar no campeonato. 251 rupias, ou seja cerca de 3 EUR, foi o que me custou comprar esta equipa. Chamei-lhe “Portugal Team” e durante a tarde toda no meio do nepales que todos falavam la’ se ia ouvindo “Portugal Team” para aqui e “Portugal Team” para ali. Eh, eh... Infelizmente perdemos 3-2 e nao passamos ‘a fase seguinte. Ha’ quem diga que perdemos porque o nosso guarda-redes fumou umas ganzas antes do jogo, nao sei. Mas nao faz mal porque foi muito giro. Alem disso fiquei amigo de varios dos “meus” jogadores que sao pessoas fantasticas, o que so’ por si ja’ valeu a pena.

09:08 Ha' portugueses que passam o tempo todo a dizer que o tuga isto e que o tuga aquilo e que nos outros paises e' que e' e que Portugal e' terceiro mundo e mais isto e aquilo. Eu diria que estes portugueses nunca sairam de Portugal senao para ir 'a Sierra Nevada, ou a um Resort qualquer em Punta Cana ou na Tailandia, porque se metessem um pezinho na Asia real...

09:07 Sinto-me casto! Nestes dois meses ja’ aprendi centenas de palavras em nepales, ja’ consigo comunicar perfeitamente com a maior parte das pessoas e, senhoras e senhores, AINDA NAO APRENDI NENHUM PALAVRAO!!! Juro!! Quer dizer... ‘a excepcao do “GO” que quer dizer "merda" e que fui obrigado a aprender por causa do trocadilho com o meu nome GO+DINHO, mas esse nao conta, ate’ porque nunca o usei.

09:06 Embora o meu organismo resista muito bem a toda a porcaria que tenho comido, os microbios nepaleses andam ai e nao tenho defesas para eles. Como tal, qualquer feridazita que tenha o azar de fazer nos pe’ infecta imediatamente. Agora tenho duas feridas infectadas nos pes que nao ha’ meio de ficarem boas porque fui picado por umas melgas, cocei, fez uma feridinha pequenina, nao liguei, passados 2 dias mal conseguia andar com os pes todos inchados. Agora, ‘a custa de muita Betadine, esta’ melhor, mas mesmo assim continua com mau aspecto e tenho medo que nao consigam sarar completamente antes de ir fazer trekking dentro de 15 dias. Era uma grande bronca. (Nota para a minha mae que provavelmente fica preocupada ao ler isto: Nao!, as feridas nao sao assim tao grandes!)

09:01 Estou ca' ha' quase 2 meses. O dia-a-dia do Nepal e' agora o meu dia-a-dia. Tudo comeca a ser tao natural, tao familiar, que 'as vezes me esqueco de dar valor ao incrivel sitio onde estou: As cores, sons e sabores tornam-se banais porque sao as minhas cores, sons e sabores. Entao, quando de repente me lembro que isto e' apenas um sonho, dou um trambolhao do palco e sento-me novamente na plateia, tornando a sentir toda a admiracao e fascinio iniciais.

09:01 Nos USA ha' sitios fantasticos com hoteis maravilhosos ao pe' dos quais ate' metem grilos a fingir para as pessoas julgarem que estao ao pe' da natureza. No Nepal ha' sitios fantasticos com grilos maravilhosos ao pe' dos quais ate' metem hoteis a fingir para as pessoas julgarem que estao ao pe' da civilizacao.

09:00 O meu amigo Filipe nunca conseguiria morar na minha aldeia. E’ que ele sofre de aracnofobia! Num dos dois cadeiroes do meu quarto mora a Joana que e’ uma aranha muito bonita com uns 6cm de diametro. Estou a amestra-la. Tirei-lhe um retrato. Ontem recebeu a visita de um tio com 10cm tambem muito simpatico, mas nao ficou para o jantar. Embora durante o dia o meu quarto apenas receba a visita das irritantes e omnipresentes moscas, ‘a noite ganha vida! Sentado ‘a secretaria a escrever o meu diario, vou observando as aranhas a construirem as suas teias transparentes e, por vezes, a tecerem um fato ‘a medida para um bicho mais distraido que tenha caido na sua teia. Ao mesmo tempo vou-me desviando o melhor que consigo dos voos picados dos varios OVNIs que vao sobrevoando o espaco aereo do meu quarto. 'As vezes, infelizmente, levo com uma traca gigante na cara e apanho um grande susto (imagino o susto que ela tambem nao apanha!). Ja' deitado na cama, tranquilamente separado dos bichos pela rede de mosquitos, o quarto transforma-se num espectaculo aereo onde dezenas de bichos enormes (a julgar pelo barulho que fazem) treinam incansavelmente as mais variadas acrobacias. Confesso que a unica coisa com que fico mais apreensivo e' ouvir barulhos de bichos dentro da minha mochila e dos meus sacos sem saber se e' um rato, uma barata, uma aranha ou um inofensivo escaravelho... No Nepal e' tudo 'a grande: as formigas parecem moscas e as moscas parecem passaros. Nao estou a exagerar. Por cima, na caixa de ar que existe entre o meu tecto e o chao do primeiro andar, escuto com curiosidade os passos apressados do ratinho que la’ mora ha' ja' 3 semanas e que todas as noites corre freneticamente de um lado para o outro, e tento adivinhar o que la’ faz. Tambem e' normal estar sentado na mercearia do meu amigo Kesab e, na maior das descontras, um rato passear-se ostensivamente pelo meio das prateleiras e seguir viagem sem que ninguem fique minimamente perturbado. No outro dia 'a noite quando fui 'a casa-de-banho (que fica numa casota separada da nossa casa), ao abrir a porta interrompi inadvertidamente uma reuniao de condominos das mais de 20 baratas que la' moram. Chamei o Manish e perguntei-lhe o que fazer. Ele rio-se condescendentemente e explicou-me que nao ha' problema nenhum porque as baratas tem medo dos seres humanos e que quando eu entro elas fogem todas. Hum... na realidade ele tem toda a razao: porque hei-de ter medo de um bicho que tem medo de mim? Desde ai que nao tenho problema nenhum em fazer coco' com duas ou tres baratas mais corajosas que em vez de fugirem ficam muito quietinhas a poucos centimetros de mim! Curiosamente no outro dia estava muito bem de calcas em baixo a fazer outro coco' quando reparei que no lugar onde costuma estar uma barata desta vez estava um escorpiao! Nao tive medo. Aproveitei o facto de estar tao calma e relaxadamente sentado de cocoras para demoradamente o contemplar. Que sorte, nunca tinha visto um escorpiao!

08:56 Toda a gente tem varios tons de voz que usa conforme a intencao que quer dar ao que esta' a dizer. Pode usar um tom de riso, tensao, raiva, tristeza, etc... Aqui no Nepal as mulheres usam e abusam de um tom de voz inedito na nossa cultura: o lamurio. A "minha mae" usa-o amiude e eu assusto-me sempre porque num momento esta' a falar normalmente e, de repente, na frase seguinte sai-lhe um lamurio muito sofrido e parece mesmo que comecou a chorar! Mas afinal nao, e' so' um tom de voz e a frase seguinte ate' pode sair com tom de riso. E' deveras estranho e nao ha' meio de me habituar!

08:56 Sobre a liberdade: Quando cheguei 'a aldeia ha' um mes e tal nunca sabia em que campos podia pisar e em que campos nao podia pisar, e por isso tinha de andar sempre pelos estreitos caminhos que existem entre eles. Os miudos da aldeia deslocavam-se muito mais depressa porque sabiam sempre quando podiam fazer corta-mato pelo meio de um campo. Entretanto agora tambem ja' sei e por isso ja' vou tao rapido quanto eles. A isto eu chamo liberdade. Liberdade nao e' poder fazer tudo o que se quer. Liberdade e', sim, saber tudo o que se pode fazer. Da mesma forma na aldeia ha' muitos sitios com agua, uns com agua boa e outros com agua impropria para consumo. Liberdade nao e' ficar com sede por ter medo de beber; Liberdade nao e' poder beber de todas as aguas; Liberdade e' saber de que agua se pode beber.

08:56 Quando se mete um espelho 'a frente de uma pessoa e se lhe pergunta "O que e' que ves?" toda a gente responde "Vejo-me a mim" mas ninguem responde "Vejo um espelho". Hum...

08:55 A vida: A vida nao e' mais que uma oportunidade que nos e' dada para tentar compreender o que e' a vida.

08:55 Se o ceu for de facto Hindu eu ja' devo ter la' um cantinho reservado para mim de tanta tika (aquele po' vermelho) que ja' me meteram na testa e de tanta puja (worship, cerimonias religiosas) em que ja' participei. E' que aqui no Nepal tudo e' puja, tudo e' ritual, tudo tem significado, tudo e' religioso! No Nepal os deuses andam de transportes publicos de tantos que sao. Por exemplo, no primeiro dia do ano, 1 de Boishak de 2061, vulgo 13 de Abril de 2004, quando entrei na cozinha de manha deparei com um autentico altar com dezenas e dezenas de pratinhos com comidas diversas e substancias variadas que faziam um conjunto lindissimo. Nos pratinhos havia arroz, milho, tika vermelha e amarela, legumes variados, leite, manteiga, ate' uma enorme bosta de vaca teve direito a pratinho (sim, aqui no Nepal a bosta de vaca tambem e' considerada um deus), tudo pulvilhado por dezenas de moscas que nao resistiram ao chamamento divino. Entrei na cozinha ainda espantado e foi-me dito para me ajoelhar. Ajoelhei. Depois a minha mae pos-me tika, deu-me de comer uma serie de coisinhas e ao mesmo tempo ia fazendo gestos e recitando frases sagradas. Uma cerimonia muito bonita que nunca hei-de esquecer. No outro dia tambem estava 'a espera da minha vez para lavar a roupa na fonte e uma mulher tomava o seu banho (Aqui no Nepal, esperar uma hora pela vez para tomar banho ou lavar a roupa ou seja o que for e' perfeitamente normal. E' que, aqui no Nepal, ha' mais tempo que no resto do mundo!). Quando a senhora acabou o banho ficou mais uns 5 minutos a salpicar agua e a chapinhar e a fazer movimentos repetitivos com as maos debaixo de agua, claramente seguindo um ritual. O Milan explicou-me que tambem aquilo e' puja. Ainda outro dia quando, 'as 6h00 da manha a caminho da nossa aldeia deparei com uma mulher que caminhava incansavelmente 'a volta de uma arvore enorme que la' ha' e que nesse dia estava toda salpicada de tika vermelha e amarela e ao pe' da qual tinha colocado varios pauzinhos de incenso a arder. Ou seja, nessa manha a arvore era um templo ou, qui ca, um deus. Hoje, quando regressar a Benighat, tenho uma enorme puja 'a minha espera em casa do meu amigo Kesab onde nao vao faltar comes e bebes e bailarico e que promete entrar pela noite fora! Os hindus estao constantemente a associar rezas e significados a accoes do quotidiano tornando assim solenes muitos momentos que de outra forma seriam banais. Muito bonito mesmo!

08:49 Enquanto no ocidente tentamos manter uma fachada limpinha e pintadinha e guardamos uma serie de intimidades e reservamos apenas para nos muitos habitos e comportamentos, no Nepal e' como se os bastidores da vida estivessem 'a mostra: as pessoas assoam-se, escarram, arrotam, mijam e cagam despreocupadamente 'a frente umas das outras. Curiosamente, e como excepcao, flatulencia nao e' la' muito bem aceite. Nao ha' quaisquer segredos porque nao ha' qualquer tipo de privacidade quando ate' o banho e' tomado 'a frente das outras pessoas. As mulheres adornam-se e penteiam-se mas na minha opiniao e 'a luz do modelo estetico que aprendi a gostar, o conjunto dos seus habitos e comportamentos aniquila totalmente a sua sensualidade. Bem que eles nao se cansam de tentar que eu case com uma nepalesa mas parece-me pouco provavel :)

08:47 Sexualmente falando cada vez tenho menos esperancas de que o tipico casal nepales aguarde que os 5 putos vao para a escola e que os avos e tios e primos e afilhados e restantes moradores da sua casa vao passear para poderem, em paz, mandar a queca fetiche contra o moedor de arroz com a mulher aos berros a arrancar com as unhas o barro das paredes. Infelizmente o mais provavel e' que o sexo seja para procriar... silenciosamente. Continuo a tentar averiguar mas e' um assunto delicado.

08:46 As enormes familias dormem todas na mesma casa, na maior parte das vezes no mesmo quarto. Por isso, o espaco vital que no ocidente somos ensinados a preservar, aqui e' inexistente: as pessoas tocam-se e encostam-se quando se sentam ao lado umas das outras mesmo quando ha' imenso espaco e nao ha' necessidade de se ficar apertado e por exemplo num autocarro se num banco de 2 lugares estiverem duas pessoas sentadas nao ha' problema nenhum e ninguem leva a mal se chegar uma terceira perfeitamente desconhecida e calmamente se sentar entre as duas ou mesmo entre as pernas de uma delas, nao se queixando nenhuma delas do desconforto por muito longa que seja a viagem que tem pela frente.

2004-04-11
06:19 Aqui estao finalmente algumas fotos da minha aldeia, Bawn Tar. Para ler os meus comentarios basta parar o rato durante um segundo em cima de cada foto sem fazer click:

O dia-a-dia na minha aldeia esta' cheio destes momentos

Alunos na minha aula em Bawn Tar. As meninas sao mais envergonhadas mas estao a melhorar...

A minha mae, pai e irmao nepaleses durante uma refeicao na nossa linda cozinha. Aquele risco ali e' um pequeno desnivel que eu nunca posso passar. Esta foi a primeira vez que me deixaram passar especialmente para tirar esta foto!

Ia eu 'a pendura de mota para a escola com o Kesap quando vi este gajo numa janela. Pedi-lhe para parar a mota e fui la' tirar esta foto. Depois ele explicou-me que este gajo e' um drogado meio chanfrado da cabeca.

E' assim a vida na minha aldeia!

Esta e' a casa do Hori, um rapazinho muito pobre que anda sempre descalco e consegue dar saltos tao grandes como o Conan o Rapaz do Futuro.

Na minha aldeia para onde quer que olhe vejo paisagens como esta. Pois e'...

Eu a fingir que estou a cavar num campo de nabos. Meti aqui esta foto nao por ser bonita mas para provar que estou vivo, um bocado como o Bin Laden fazia ha' uns tempos.

Esta e' a minha casa. Aquela janela ali em baixo 'a esquerda e' a do meu quarto fantastico.

Como contraste, esta e' tambem uma casa na minha aldeia onde vive uma familia muito pobre. Nem dinheiro tem para construir as paredes. O nosso bufalo tem melhores infra-estruturas do que eles!

Sempre que passeio na aldeia cruzo-me com pessoas bonitas!

Esta e' uma das irmas do Hori, o tal que e' igual ao Conan. Ela e' muito bonita!

A prova de que os camioes estao sempre a tentar chocar de frente uns contra os outros! Isto foi ha' duas semanas a caminho de Narayangath.

2004-04-10
18:20 Tenho andado a distribuir roupinha para bebe' que trouxe de Portugal (oferecida pela avo' da Maria) 'as familias mais pobres da aldeia. Na minha aldeia moram cerca de 300 pessoas. Umas bastante bem instaladas como a minha familia e outras MUIIIITO pobres como uma familia que mora la' para cima numa casa que so' tem telhado mas nao tem paredes. Eles quase nao conseguem ganhar dinheiro... e quando ganham... o pai gasta tudo em alcool em vez de construir as paredes. Teem dois filhos. E' lixado.

18:17 Hoje trouxe comigo uma aluna minha chamada Rajmi que tem 12 anos e ainda nunca tinha vindo a Kathmandu. Ela e' muito pobre porque a mae tem 30 anos e 4 filhos e o pai divorciou-se e nunca mais dele se ouviu falar e ela tem de aguentar a familia sozinha. Ha' uns dias convidaram-me para jantar la' em casa e foi muito bonito. A casa deles e' um quarto por traz da lojinha dela que e' uma destas mercearias que vende de tudo um pouco. Hoje a Rajmi andou delirante pelos quatro cantos da cidade. Conheceu Pashupat Nath, Monkey Temple e Boudhanat. Ao jantar comeu pizza (!) mas nao gostou... Amanha regressa ao seu mundo real...

18:13 As vezes gostava de poder imitar aquele filme "Being John Malkovich" e deixar que os meus amigos espreitem atraves dos meus olhos a realidade que estou a viver...

18:11 Ok, e' oficial, estou com saudades. Quando fez um mes que cheguei ao Nepal senti repentinamente imensa falta da minha familia, dos meus amigos e das minhas coisinhas. Fiquei uns dois ou tres dias com vontade de regressar. Agora ja' passou, sinto 'a mesma saudades mas ja' nao estou com tanta pressa de regressar! Ufa!

18:07 Na minha ultima viagem a Kathmandu conheci uma rapariga nepalesa chamada Saloni que me perguntou se eu gostava de rafting. Eu disse-lhe que gostava mas que nao estava a planear fazer porque era caro. Entao ela disse que me oferecia um passeio de rafting! Na sexta-feira la' fui eu todo contente imaginando que ela trabalhava numa agencia de rafting e que por isso ia encontrar montes de outros turistas. Afinal nao, afinal o rafting era organizado por um grupo de amigos delas todos nepaleses que resolveram ir dar um passeio e fazer um piquenique. Foi fantastico porque passei o dia com um grupo muito divertido de nepaleses bastante diferentes dos que tenho conhecido e por isso aprendi imensas coisas novas. Descemos uns 15Km do rio Trishuli e depois acampamos numa praia pequenina by the river. 'As tantas deu-se uma chuva danada (adivinhando a chegada da moncao) e os planos para cozinhar o jantar foram por agua abaixo. Os gajos entam apanharam uma granda bebedeira e eu comecei a ver o caso mal parado e ja' estava ate' a adivinhar que a coisa se ia tornar violenta. No entanto mais uma vez os nepaleses me surpreenderam. Mesmo totalmente a cair de bebedos estavam constantemente preocupados e a perguntar-me se eu estava aborrecido ou se me estava a divertir e quando um comecava a ser mais melga os outros pediam-me desculpa e afastavam-no!. Foram extremamente razoaveis e acabamos todos a cantar e a tocar harmonica 'a volta da fogueira quando eventualmente a chuva parou. Havia duas tendas para 8 pessoas. Uma tenda estava ensopada e so' podiam ficar duas pessoas. A outra tenda, mais uma vez para minha grande surpresa, reservaram-na para mim por eu ser um convidado de honra (!!!) e ficaram todos a dormir debaixo de um abrigo sem paredes so' com um pano a servir de tecto. Eles so' me explicaram depois e quando compreendi que ia ficar a dormir sozinho na tenda ja' eles estavam mais que instalados no seu abrigo ao relento. Estes nepaleses sao mesmo o maximo. Se alguma vez alguem faria isto em Portugal! Confesso que a ideia me acabou por agradar, nao por querer o espaco todo para mim mas porque eles estavam realmente bebedos e nao paravam de brincar aos empurroes e de conversar aos berros e nao me iam deixar dormir descansado. Assim... dormi descansado. No dia seguinte eles continuaram o rafting mas eu regressei 'a aldeia porque tinha de dar aulas.

18:07 Ha' uma casa em Bawn Tar, a minha aldeia, que nao tem ninguem a viver neste momento. E' uma casa totalmente tradicional, bastante grande com 3 andares e muito bonita embora esteja a necessitar de uma limpeza. Quem se quiser mudar para o Nepal fale comigo. A renda e' 3 EUR por mes. Nao estou a brincar!

18:06 As minhas aulas tambem ja' tiveram os seus episodios. A classe de Benighat comecou com 12 alunos e comecaram a aparecer cada vez menos alunos. Um dia quando fui dar a aula a maioria dos alunos estava a jogar Cricket e, tendo-me visto, resolveu continuar a jogar. Nesse dia cancelei definitivamente a classe de Benighat porque "students don't want to learn". Quatro alunos vieram ter comigo e pediram-me por favor para eu continuar a aula porque era muito importante para eles. Acedi e agora em vez de 12 alunos desinteressados tenho 4 atentos. E' uma evolucao. Um dos alunos, o Sushil que tem 14 anos e foi um dos que ficou a jogar Cricket e depois se arrependeu, entregou-me uma redaccao intitulada "Nuno", que escreveu com esferografica verde emendando com tinta correctora branca, onde me disse como gostava das minhas aulas e quao agradecido estava por eu estar ali a ajudar o Nepal e montes de mais elogios. Inesperei completamente aquilo e fiquei sem palavras. A carta e' liiiiinda. Foi magico! Alem disso todos os dias recebo desenhos de meninos dos 3 aos 14 anos, todos eles com a mesma inocencia e alegria. E' de facto um privilegio. Obrigado Deus!

18:05 Ha' uns dias a "minha mae" estava com o periodo e por isso nao pode cozinhar. Foi o Manish quem fez a comida e serviu toda a gente. Pensei que a coisa fosse assumida implicitamente mas afinal foi-me dito explicitamente que a "minha mae" nao podia cozinhar porque estava menstruada. No final do jantar ia-se dando uma tragedia. Quando terminamos levantei-me e estiquei o braco para pegar no prato da minha mae e o levar para o alguidar onde se lava a loica. Mesmo antes de eu tocar no prato uma vizinha chamada Reka deu um berro enorme, semelhante ao que alguem daria para me avisar que eu ia pegar em algo a ferver. E' que quando as mulheres estao com o periodo estao impuras e NINGUEM lhes pode tocar. Fiquei em panico e com o coracao a bater muito depressa. Felizmente ela deu o berro a tempo mas foi uma situacao deveras constrangedora. A seguir, mais calmo, perguntei ao Manish o que teria acontecido se eu tivesse tocado no prato. Ele explicou-me que eu teria ficado impuro e que entao a minha mae teria que pegar em agua com as maos, tocar com essa agua num dos seus brincos de ouro e depois atirar-me com a agua para cima. Hum... podia ser pior... :)

18:05 No Nepal as aldeias sao totalmente auto-subsistentes e a terra da' tudo o que o Homem precisa para viver. Em Bawn Tar e' como se ja' tivessem semeado as fotografias todas. Eu so' tenho de passear pela aldeia e apanhar as mais vicosas. A minha maquina fotografia e' a minha cesta de vime.

18:04 Uma amiga minha disse-me: "Nao morras sem viajares sozinho pelo menos uma vez". E nao e' que ela tinha toda a razao? Agora ja' posso morrer descansado! Amiga, tinhas razao!, nao ha' melhor do que viajar sozinho! Na realidade poucos foram os momentos ate' agora em que me senti sozinho!

18:03 O Nepal e' um pais tao tao tao estranho que nos camioes, por tras do condutor, nao ha' posters de gajas com as mamas 'a mostra! Juro!

18:03 No Nepal, diz-me o que cagas dir-te-ei o que comes.

18:03 Descobri recentemente que o meu apelido "Godinho" e' motivo de grande chacota aqui no Nepal. Aparentemente "Go" quer dizer "merda" e "dinho" e' muito parecido com "dinus" que traduzido quer dizer "por favor de-me". Sendo assim "Godinho" quer dizer "Por favor de-me merda". Hum...

18:03 Ontem 'a noite quando fechei a luz do meu quarto em Bawn Tar descobri com satisfacao que tinha dois pirilampos no tecto! Foi maravilhoso constatar que no Nepal para termos estrelas no tecto nao temos, como em Portugal, que colar autocolantes que brilham no escuro! Fiquei horas deliciado a observa-los a voar 'a volta da rede anti-insectos que protege a minha cama sempre com a sua luzinha a piscar. Eles falam uns com os outros porque 'as vezes piscam mais depressa e 'as vezes mais devagar. Na minha aldeia ha' centenas de pirilampos e farto-me os apanhar e brincar com eles. Sentam-se calmamente na minha mao sem fugirem.

18:02 O Nepal esta' em constante devir. Tenho recebido emails de amigos preocupados com as noticias de que o Nepal esta' em guerra civil e outras tragedias equiparaveis. Nao e' exactamente assim. Para que compreendessem exactamente a situacao teria de explicar mais de 200 anos de historia e agora nao tenho tempo porque sao 23h e isto fecha daqui a uma hora. No entanto, em poucas linhas vou tentar explicar a o que se passa. Em 2001 deu-se uma grande tragedia em que o rei Birendra e praticamente toda a familia real foram brutalmente assassinados no seu proprio palacio. Presume-se que o assassino tenha sido o principe Dipendra, filho do rei por este nao o deixar casar com a sua amada, mas aqui ninguem acredita que tenha sido ele todos pensam que o verdadeiro culpado e' o tio Guinendra que, como no Nepal "O Rei Morreu Viva o Rei!" foi imediatamente ainda nem as vitimas tinham sido cremadas. Ora enquanto o Birendra era bastante liberal, tendo estudado em Eton e Harvard, e estava a conduzir o Nepal para um regime cada vez mais democratico e proximo do povo, o Guinendra esta' a reclamar novamente grande parte dos poderes para ele e no ultimo ano dissolveu o regime multi-partidario que o Birendra tinha permitido acontecer em 1990. Como consequencia disso os varios partidos estao a organizar diariamente manifestacoes no centro de Kathmandu para tentar evitar que o Nepal tenda novamente para um regime absolutista semelhante ao que viveu durante praticamente toda a sua surrealista existencia. Ora estas manifestacoes nao sao de todo do agrado do rei e das forcas policiais que o servem que por isso mesmo e 'a boa moda Nepalesa tentam 'a porrada resolver a situacao. Em Kathmandu ainda nao ha' recolher obrigatorio como em Narayanghat mas ontem foi anunciada uma nova regra em na rua nao se podem juntar mais de 4 nepaleses. Se a policia encontrar 5 nepaleses juntos sao presos ou levam uma carga de porrada. Assim, a guerra civil nao e' mais do que manifestacoes legitimas de um povo que luta por um estado democrata e livre contra um rei tirano e possivel assassino dos seus familiares. Quanto 'a minha seguranca, essa... esta' segura. :) Os turistas aqui sao deuses (quase tudo aqui e' um deus, ate' um monte de estrume e' um deus e estou a falar a serio), por isso nao se preocupem comigo porque enquanto eu for tido como uma encarnacao de Shiva nada me vai acontecer. Muito pelo contrario e' uma honra e uma sorte poder estar neste pais no preciso momento em que tantas tao profundas mudancas estao a ocorrer. Devo confessar no entanto que, embora hoje tenha passado por dezenas de sitios em Kathmandu, ainda nao notei nada de extraordinario. Alem disso Bawn Tar esta' longe de tudo e de todos e la' a vida continua pacata como sempre foi!

2004-03-30
04:55 Ontem acordei 'as 6h00 para vir para Naryanghat com o Manish visitar o seu tio. Apanhamos um camiao que foi gratis porque o condutor era tio do Manish! A viagem de cerca de 90Km durou mais de 4 horas numa estrada a que eles chamam highway e que na maior parte dos sitios nem uma faixa tem por causa das dezenas e dezenas de derrocadas de terra que a foram destruindo. Passamos mais tempo parados do que a andar. Claro que ia morrendo varias vezes de choque frontal mas a isso ja' nao ligo. A poeira e' tanta que toda a gente viaja com um lenco na boca o tempo todo. Cheguei a Naryanghat quase 'as 12h00. Aqui e' importante assumir que nao ha' pressa e que quando se chegar chegou-se pois caso contrario... e' o stress total. Naryanghat e' uma mini-cidade que parece que foi feita com as pecas que sobraram quando acabaram de fazer Kathmandu. E' feia e desinteressante, mas gostei de ca' vir pois conheci mais uma realidade diferente. Hoje passei das piores noites da minha vida porque me disseram que nao havia mosquitos onde ia dormir e afinal havia e nao eram poucos. Fui picado dezenas de vezes e passei a noite em panico a tentar em vao esconder-me deles. Foi horrivel. Dentro de uma hora vou a cinema (claro que nao vou perceber nada mas e' giro) e depois regresso 'a minha doce e confortavel aldeia.

04:51 No outro dia estava a ver um desfile de trajes regionais na televisao. Em Portugal, quando ha' um desfile destes toda a gente veste o traje regional que usa no rancho folclorico, unico local onde ainda se mantem realmente vivas as tradicoes. No Nepal a tradicao esta' tao viva que nao e' tradicao, e' costume. Aqui este desfile podia chamar-se "Come as you are party".

04:46 Uma vez, perdido algures do deserto nos confins de Marrocos, entrei numa especie de bar empoeirado para me proteger de uma tempestade de areia e na parede estava um poster colorido com uma enorme cascata fresca e refrescante. Foi um contraste marcante! Imagino o mesmo tipo de contraste aqui no Nepal se alguem lesse em voz alta as teorias de Freud sobre sexualidade.

04:44 Anteontem um miudo perguntou-me: "Em Portugal os rapazes podem beijar as raparigas antes do casamento?". No Nepal os meninos e meninas brincam imenso enquanto sao pequeninos. Quando elas chegam 'a puberdade tornam-se reservadas e distantes. Ninguem faz piropos, ninguem manifesta desejo, nao ha' qualquer tipo de erotismo ou sensualidade. A sexualidade na adolescencia ou esta' muito bem escondida ou nao consta de todo.

2004-03-29
09:38 No Nepal a esmagadora maioria dos casamentos sao arranjados. "Love marriages" como aqui lhes chamam, sao algo que so' existe nos filmes indianos de Bollywood, tao famosos por estas zonas. No entanto a opiniao que tenho relativamente a este tipo de casamentos mudou totalmente. Na nossa cultura os casamentos arranjados sao vistos como uma grande tragedia e que os noivos sofrem horrores porque sao privados do seu amor para casar com alguem de quem nao gostam. Isso deve acontecer pontualmente, mas a verdade e' bem diferente e muito menos tragica: As expectativas de todos os miudos e miudas esta ajustada a esta realidade. Conversando comigo sobre casamento e amor os outros rapazes (as raparigas nao falam sobre isso!) falam dos casamentos por amor como uma alternativa que sabem existir mas que nao pretendem adoptar porque nao faz qualquer sentido para o estilo de vida que aprenderam a levar. Eles nao pretendem apaixonar-se e nao e' de todo contra vontade que casam com uma desconhecida. Alem disso, na maioria dos casos nao sao os pais que decidem mas sim os proprios noivos: o rapaz, quando chegada a idade de casar, visita varias raparigas (que nao conhece) noutras aldeias ate' encontrar uma que considere adequada e que tambem o considere adequada. A seguir e' que os pais de ambos se reuniem para se conhecerem e darem a bencao ao casamento. Nao quero com isto dizer que eu aceitaria para mim um casamento por conveniencia. O que eu descobri e compreendi e' que de facto, neste contexto, os casamentos arranjados fazem familias verdadeiramente felizes. O segredo esta' nas expectativas. Nos os ocidentais acumulamos expectativas durante toda a nossa vida que temos de satisfazer para alcancar a felicidade. Aqui e' diferente, aqui vive-se e morre-se e pelo meio tem que trabalhar para comer.

09:30 Anteontem fui com o meu pai e o meu irmao nepaleses visitar Jana Gaau que e' uma aldeia situada no topo da montanha que faz sombra 'a nossa aldeia. Subimos durante mais de uma hora uma encosta tao a pique como nunca antes subi. Chegados la' acima deparei com uma aldeia de 85 pessoas em tudo igual 'a nossa. A diferenca e' que para terem agua ou esperam pela moncao ou tem de a carregar desde a minha aldeia ate' la' acima. Quem diz agua diz tudo aquilo que nao conseguirem produzir. Quando cheguei, depois de subir a bom passo sem parar durante 1 hora estava ansioso por um grande copo de agua. "Chhaina", ou seja, tira dai as ideias porque agua e' preciosa demais para beber so' porque se esta' a morrer de sede. Bebe um grande copo de leite de bufalo que esse tempos para dar e vender! Mas o mais impressionante e' que, o que para mim foi um grande passeio, para os miudos da aldeia e' simplesmente o caminho que fazem todos os dias para ir para a escola. Ah pois e'!, descem e sobem todos os dias porque a escola e' ca' em baixo em Benighat!!!

09:29 O meu dia-a-dia na aldeia e' idilico. Embora toda a gente acorde antes das 6h eu acordo todos os dias pelas 8h. Dou aulas durante 2 ou 3 horas por dia e o resto do tempo e' passado a descansar, a passear com o Niroj que e' pastor de cabras, a acompanhar o meu pai na rega dos campos e na apanha dos vegetais, a ler, a nadar, a tirar fotografias, a visitar as aldeias vizinhas, a comer, a preparar as aulas, enfim... tarefas arduas que me deixam muito stressado e deprimido. Nunca me deito depois das 21h. Ja' sabia que na aldeia me deitaria sempre cedo, mas na verdade isto de me deitar cedo, ao contrario do que imaginava, nao e' um habito que sigo, e' antes uma vontade propria que de bom grado satisfaco.

09:28 Ha' uns tempos fiz desaparecer uma flor na mao e depois tornei a faze-la aparecer. Ficaram todos pasmos. Depois quando o meu irmao me trouxe agua para lavar as maos antes de jantar eu disse-lhe que nao precisava da agua dele e fiz jorrar agua da minha mao. Ficou tudo doido e agora nao ha' crianca que nao saiba da facanha em Bwahun Twar e em Benighat. Tenho a agradecer ao meu amigo Elcio que e' magico e antes de eu partir me ensinou este truque, ou antes, ofereceu este truque 'as criancas nepalesas. Juntei-lhe mais uns truques que sabia, o malabarismo e a minha harmonica e consigo divertir os miudos durante horas, divertindo-me eu tambem ao mesmo tempo.

09:28 Na aldeia, para onde quer que va', vai um enxame de criancas atras. Estao sempre a ensinar-me cancoes e novas palavras em nepales. Temia que me cansasse da sua ininterrupta energia mas ate' agora muito pelo contrario. Por vezes olho para todos eles e sinto pulsar dentro de mim um tipo de alegria que ha' muito nao sentia, uma especie de emocao incondicional, que e' ao mesmo tempo causa e consequencia. Estou vivo!

09:26 Como ja' nao ha' escola decidi organizar turmas privadas. Agora tenho 2 turmas a quem dou aulas diariamente. No entanto sao tantas as pessoas a pedirem-me para aprender ingles comigo que nao vou resistir a fazer pelo menos mais uma turma. So' agora compreendo a importancia que tenho aqui e a oportunidade que represento para esta gente. Nas aulas tao depressa encenamos pequenos teatros com dialogos simples em ingles como jogamos ao Pictionary. Estes miudos viram tao poucas coisas que qualquer jogo ou actividade e' uma novidade emocionante! E' extremamente estimulante! Nao se pense no entanto que estou a educar criancas selvagens e incultas! Muito pelo contrario, sabem imenso, sao muito bem educados e inteligentes 'a brava. Apenas tem dificuldade com o ingles.

09:26 Quanto ao meu voluntariado na escola, esse nao comecou muito bem. No primeiro dia em que cheguei 'a escola resolvi seguir calmamente as ordens dos professores. Passados 2 minutos de nos conhecermos deram-me giz e um apagador e disseram "Go to class 5!". Nem uma conversa, nem curiosidade para saber o que eu ia fazer com os alunos deles, nem procupacao em me orientar, NADA! Recusei-me e disse que queria observar antes de comecar a dar aulas. O gajo la' acedeu. O "gajo" acumula as funcoes de professor de ingles e director da escola e tenho a certeza de que morreria de sede se tivesse de pedir um copo de agua em ingles. No dia seguinte disse-lhe que ia so' observar, o cabrao disse "ok" e a seguir 'a frente dos alunos passou-me o giz e o apagador para a mao e disse "Go!" e foi-se embora sem me dar hipoteses!!! Juro!! Deixou-me ali! Nao tive alternativa senao dar a aula que felizmente acabou por correr muito bem. Fiquei pior que estragado e depois reforcei a ideia de que apenas queria observar durante uns dias. No dia seguinte tornou a dizer "Ok, go to class 5!". Desisti. Qualquer tentativa de conversa mostrou-se impossivel e por isso passei a ignorar, sorrindo, tudo o que me diziam e limitei-me a fazer o que me apeteceu. Quando o Asim (o meu coordenador da ONG) finalmente chegou expliquei-lhe a situacao, tivemos uma reuniao com o tal professor e o Asim concordou comigo: este gajo e' burro demais e por isso ja' nao vou dar mais aulas nesta escola. Lamento sinceramente pelos alunos que sao tao queridos.

09:24 Faz hoje 2 semanas que cheguei a Bwahun Twar e a minha vida, embora todos os dias diferente e surpreendente, vai-se fundindo lentamente no quotidiano dos habitantes desta maravilhosa aldeia. Longe da maluquice de Kathmandu, aqui tem-se realmente qualidade de vida. A agua e' fresquinha e saudavel, os vegetais sao saborosos e bem cheirosos, as pessoas sao simpaticas, nao ha' pressa e quem corre corre por prazer, as criancas sao sinceras, alegres e incansavelmente radiantes, enfim, tudo me sorri!

08:51 Querido Diario, estou na merda! Ontem 'a noite inadvertidamente apaguei todas as fotografias que tinha na minha maquina digital. Coisa pouca, foram so' 450 fotos para o lixo. Na verdade nao sofro por ter perdido memorias do que tenho vivido, isso de querer prender o mundo dentro de uma maquina fotografica e' coisa de japones. Sofro sim porque ja' tinha uma relacao emocional com muitas delas de tao lindas que eram. E' que muitas das fotos estavam fabulosas. O merito nao foi meu mas sim do lindo sitio onde estou a viver. Enfim, e' a vida. Ao menos ainda tenho mais um mes na aldeia para tentar encontrar as fotos que perdi... e pronto, chega de tragedias.

2004-03-18
02:46 Ontem na festa pude constatar mais uma vez que os rapazes nepaleses tem um nivel de intimidade e sensualidade entre eles que seria completamente inaceitavel para nos, ocidentais heterossexuais. Durante a festa (e com tao pouco espaco) eles abracam-se constantemente, acariciam-se e ate' beijinhos dao (na cara!). Estava com medo que me comecassem a tocar demais mas felizmente isso nao aconteceu porque devem saber que os ocidentais nao tem esses costumes. Se nao estivesse ja' de preaviso por ter lido sobre isto no Lonely Planet e por o Biki me ter explicado podia jurar que ontem tinha estado numa festa gay. Mas nao!, e' mesmo assim e nenhum deles e' gay. Este fenomeno tao estranho e' de certeza consequencia de o sexo e as manifestacoes publicas de afecto entre rapaz e rapariga serem fortemente reprimidas nesta zona do mundo. Ao ponto de todos os rapazes dancarem entre eles de maos dadas e tudo e a rapariga ter dancado sempre sozinha. Estranho mesmo! Mas ha' que entender e nunca esquecer que se eu tivesse nascido aqui tambem faria assim!

02:34 Ontem 'a noite fiquei em Kathmandu e logo por sorte um amigo do Biki fez anos e convidou-me para a festa. Foi fabuloso. Eramos cerca de 20 pessoas num quarto com 10m2 ou pouco mais. Quando la' cheguei uns estavam a cozinhar uma serie de coisas e os outros estavam a dancar musica tradicional nepalesa. Era apenas uma rapariga e o resto tudo rapazes. Como sempre, a rapariga muito mais reservada e os rapazes muito mais extrovertidos. Fiquei na festa umas 3 horas e diverti-me 'a farta. Em Portugal se for a uma festa ou a uma discoteca que tenha mais rapazes que raparigas os rapazes nao se divertem nada e ficam o tempo todo a dizer "foda-se nao ha' gajas". Aqui nao, aqui dancam todos uns com os outros e divertem-se imenso. Como eles sao estudantes e tem pouco dinheiro decidiram que nao havia alcool na festa e por isso foi tudo corrido a "Montain Dew" que e' uma especie de Sumol daqui da zona. 'As tantas comecaram a fritar hostias de camarao e comecou a ficar tanto tanto tanto fumo que comecamos todos os 20 a tossir e a rir ao mesmo tempo. Eh eh... mas depois la' sobrevivemos. Quando o jantar ficou pronto serviram-se os pratos todos e sentamos-nos todos em cima da cama calmamente a comer. Depois de comer meteram musica indiana de um filme Bollywood muito famoso chamado Tere Naam e dancamos todos freneticamente. O bolo era fantastico, em forma de coracao a dizer "Happy Birthday Ishumar". Infelizmente os nepaleses (de forma ainda mais acentuada que os portugueses) estao cada vez mais americanizados e por isso os parabens a voce sao sempre cantados em ingles, o que e' lamentavel. Para compensar cantei em portugues! Depois fui dormir porque estava muito cansado e eles continuaram a dancar.

2004-03-17
12:17 Acabei por nao conseguir regressar hoje 'a aldeia, e por isso, como tive algum tempo livre aqui ficam algumas fotos so' para dar um cheirinho de como e' o tecto do mundo (se se pairar o rato sobre cada imagem aparece uma descricao como que por magia):

Holi man num templo hindu fabuloso
Eu com os meus amigos nepaleses durante o Holi Festival em que nos encharcamos de tinta.
Eu depois do Holi Festival. Como se pode ver... foi violento!
Eu numa aula de literatura nepalesa na universidade de uns amigos.
Um casamento em Godawari, a minha training village onde passei 3 dias a treinar como ser um nepales de gema.
Eu no meu quarto em Godawari. Era pequenino mas lindo! Aquela ali ao lado e' a Romi que e' uma superstar aqui da zona.
Uma adoravel menina que estava no casamento.
Alunos da escola de Godawari. Sao todos fantasticos e adoram tirar fotos.
A minha mae a vestir a minha irma temporaria de Godawari.
A minha melhor foto ate' agora, digo eu. Duas criancas em Godawari.

08:58 Tchau, vou comer um frito nojento qualquer na rua e regressar para a minha aldeia onde pretendo ficar calmamente durante uns bons tempos. Ate' um dia destes.

08:57 Aqui cada dia parece uma vida!

08:47 Hoje e durante os proximos dias devia estar na minha aldeia. No entanto tinha uns problemas pessoais urgentes para resolver. Tentei resolve-los por telefone mas la' onde moro as linhas telefonicas sao teimosas e so' 'as vezes e' que funcionam e Internet so' mesmo em Kathmandu a 130Km da minha aldeia. Tentei telefonar sem sucesso durante 2 dias e por isso tive de vir 'a cidade. 'As 8h da manha bebi um copinho de leite do nosso bufalo que a minha "mae" tinha acabado de ordenhar e fui sentar-me 'a espera do autocarro. Esperei durante 2 horas e 15 minutos, passaram uns 20 na direccao oposta e nenhum na minha direccao. Ja' estava prestes a desistir e esperar pelo dia seguinte quando de repente comecaram a passar autocarros uns atras dos outros todos de seguida na direccao de Kathmandu. Nenhum queria parar porque todos iam cheios. Ja' estava a ver a vida mal parada quando finalmente o 11 autocarro parou. La' entrei. A viagem demorou mais de 3 horas porque paramos 30min para almocar e fomos parados por 3 road stops militares onde nos obrigaram a sair do autocarro para revistar toda a bagagem. Para piorar nao tinha lugar sentado e tive de ir agachado o tempo todo porque o tecto era baixo demais para mim. Como tal demorei cerca de 5 horas para fazer pouco mais de 100Km. E' assim o Nepal nos dias que correm. Aqui em Kathmandu vou ler o mail, telefonar, comer qualquer coisa e tornar a apanhar um autocarro de regresso para a minha aldeia que, espero, nao demore 5 horas e tenha lugar sentado, e que o gajo que se sente ao meu lado nao leve uma galinha debaixo do braco como vi na viagem para ca'.

08:47 Na escolinha tenho simplesmente assistido 'aos outros professores a darem as aulas. Sao 6 professores, uns bons e outros nada bons. O professor de ingles fala tao mal ingles que nao consegue manter uma conversa por mais simples que seja!! Que cena. Alem disso a escola nao tem condicoes nenhumas. Para a nossa realidade aquilo nao e' uma escola, e' uma anedota. Mas e' o que existe e o que alguma vez vao conhecer. As criancas sao maravilhosamente bem comportadas e extremamente interessadas em aprender. Ontem estava numa aula quando passou uma cabrinha linda por tras do professor. E' tao normal que ele nao ligou nenhuma! Tenho apontado no meu caderno imensos jogos para brincar com eles mas mesmo assim estou um bocado 'a rasca porque ja' experimentei dar umas aulas e entrei em panico com os mais novinhos porque quando lhes faco uma pergunta ficam congelados a olhar para mim sem dizerem nada e eu fico sem saber o que fazer. Hum... e' muito assustador, mas agora e' tarde demais para voltar atras! Agora ou vai ou racha! Gulp!!

08:46 A minha casa e' fantastica, tenho um quarto enorme so' para mim, tem dois andares e um alpendre onde me sento com todos os dias com imensas criancas a ajuda-las a fazer os trabalhos de casa. O quarto tem umas janelas que nao da' para fechar e por isso toda a gente pode espreitar la' para dentro. Resultado: bye bye privacidade. Mas e' a vida. Nao sao so' as criancas que espreitam pelas janelas... milhares de insectos habitam o tecto e paredes do meu quarto. Para ja' tem resultado bezuntar-me de repelente mas vou ter de meter uma rede 'a volta da cama para conseguir dormir decentemente. A cozinha e' linda de morrer toda em barro, com as brazas a um cantinho. Ontem por sorte faltou a luz (falta montes de vezes por dia!) durante o jantar e entao jantamos 'a luz de velas, o que fez efeitos de luz deslumbrantes contrastando os tons escuros e amarelados do interior com o lusco-fusco esverdeado do final de dia que entrava pela janela. Para minha enorme alegria o copo faz aquele barulho maravilhoso tipo TUK quando se poisa no chao da cozinha que tambem e' de barro!

07:42 Namaste!! Ja' estou a morar na minha aldeia. Chama-se Bwahun Twar. A minha aldeia e'' liiiinda, a minha aldeia e' liiinda, a minha aldeia e' a coisa mais bonita que ja' vi na minha vida. Lembram-se da aldeia do Frodo Baggins do Senhor dos Aneis? Os gajos esforcaram-se para fazer aquilo parecer bonito e conseguiram. Pois a minha aldeia bate essa aos pontos. E' pura e simplesmente perfeita! Ja' la' estou ha' alguns dias. A minha casa e' linda e esta' rodeada de imensos campos cheios de couves e milho e trigo e pepinos e tomates e batatas. Para todo o lado que olhe ha' campos verdejantes com legumes e frutos vicosos como nunca antes tinha visto na vida. Quando cheguei 'a aldeia fui recebido por duzias de criancas que me levaram a conhecer o fabuloso paraiso onde vou morar ate' ao final de Maio. Eles estavam tao alegres e felizes quanto eu e incansavelmente tentavam ensinar-me o nome em nepales de todos os legumes e animais e arvores e frutos que encontramos pelo caminho. Nao ha' caminhos e por isso para ir de umas casas para as outras temos de contornar as centenas de campos plantados que rodeiam todas as casas. As criancas sao maravilhosas, irradiam felicidade e contagiam de alegria tudo o que os rodeia. Estava tao emocionado com tudo e com todos que por varias vezes me vieram as lagrimas aos olhos durante o passeio pela aldeia. A aldeia fica na encosta de uma montanha enorme (ou nao estivesse eu no Nepal) e por isso para baixo ha' um rio e para cima ha' uma floresta fantastica. Vejo paisagens bonitas de qualquer direccao!

2004-03-13
04:57 Ontem tive de voltar a Godawari, a minha training village, porque me esqueci do meu kitab (livro) e do meu capi (caderno) onde tinha os meus apontamentos das aulas de nepales. Adivinhem como e' que fui? O Biki levou-me de MOTA! Que cena. Ao principio e' incrivelmente assustador porque ha' um choque frontal eminente a cada 10 segundos. Mas depois o meu cerebro la' foi aceitando que aquilo e' normal e passados 10 minutos ja' estava bastante confortavel. Ele guia muito bem mas aquilo parece um autentico jogo de computador. Ainda fizemos uns 70Km por isso agora sinto-me preparado para qualquer viagem! No Nepal nao ha' passeios e por isso toda a gente caminha na estrada. E' uma granda confusao pois esta' sempre montes de gente a atravessar a rua, carros a fazer inversao de marcha nos sitios mais improvaveis, milhares de criancas a brincar e a correr mesmo 'a beira da estrada, enfim... nao ha' como descrever. Ja' percebi que aqui a buzina nao e' usada para refilar com ninguem mas mais como uns farois de presenca. Eles buzinam constantemente para toda a gente saber que ali estao. Acelera-se nas passadeiras, nao se deixa ninguem ultrapassar, faz-se 30 por uma linha mas mesmo assim ninguem nunca se chateia com ninguem! Fiz uns filmezinhos com a camara digital para mostrar a quem nao acreditar. O que eu nao compreendo e' como e' que nao ha' acidentes. Ate' agora so' vi um acidente e foi ontem, o que e' deveras surpreendente. Deve ser uma especie de instinto nepales.

2004-03-12
06:43 Ontem fui passear por Kathmandu com o Biki. Visitamos muitos sitios. Em Kathmandu vive um "deus vivo", mais precisamente uma rapariga de 7 anos que todos acreditam ser um deus. Ela vive numa casa e se pedirmos vem 'a janela para a vermos. So' sai dessa casa uma vez por ano durante um determinado festival. Ela sera' considerada um deus ate' ter pela primeira vez a menstruacao, altura em que perdera' totalmente o estatuto de divindade. Perguntei ao Biki se ela nao tinha amigos com quem brincar. Ele explicou-me que ela nao esta' sozinha e tem mais pessoas 'a volta dela mas que nao precisa de amigos porque e' um deus. Faz sentido.

06:21 Nem 3 dias estivemos na aldeia e calhou logo haver um casamento nesses dias. Conclusao: fui a um casamento nepales. Na realidade o casamento durou uma serie de dias. Houve festa, musica, comida, alegria, roupas com cores bonitas, enfim, maravilhoso. Dancei e tudo! A parte complicada de compreender e' que o noivo e a noiva, que deviam ter ai uns 17 anos cada um, nunca se tinham visto antes! Foi um casamento arranjado, alias como a esmagadora maioria dos casamentos no Nepal. Conversando com a Bhakti, outra voluntaria que e' indiana, ela explicou-me que para compreender os casamentos arranjados primeiro tenho de compreender que as expectativas dos jovens aqui sao radicalmente diferentes das nossas, que eles nao ficarao angustiados por nao se amarem e que a noiva sera' garantidamente feliz se tiver uma casa para se abrigar, comida suficiente para a familia e um marido que a respeite. Pois... sei que as realidades nao sao comparaveis. Por isso tento ao maximo nao julgar, nao tirar conclusoes nem opinar. Tento apenas observar, participar e aprender.

2004-03-11
15:07 Ontem 'a noite tive o meu primeiro encontro com uma verdadeira casa-de-banho nepalesa. Ate' aqui estava num hotel com sanita e papel higienico ou entao so' queria fazer xixi. Mas ontem era coco' mesmo e nao havia papel. Tentei conceber a ideia de dormir sem ir 'a casa-de-banho mas compreendi que era impossivel e la' aceitei a ideia. O Biki tinha-me explicado como se faz... por isso achava que era capaz. Aquilo e' uma casinha so' com um buraco no chao onde ainda se podem ver os cocos anteriores. La' estava eu de cocoras com a lanterna na cabeca a fazer as minhas necessidades. E agora? As instrucoes eram: com a mao direita mandar agua do balde para o rabinho e com a mao esquerda esfregar para limpar. Depois limpar as maos e ja' esta'. Hum... e' facil dizer, mas como e' que a seguir eu ia pegar na caneta com a mao esquerda para escrever o meu diario? Pensei, pensei, pensei, e acabei por nao ter coragem de limpar o rabo com a mao. Depois de uns 5 minutos de reflexao (de cocoras) vesti as calcas e fui para o meu quarto. Escusado sera' dizer que acabei por ser muito mais porco do que se tivesse limpo o rabo com a mao!!! Tenho de me habituar 'a ideia de que "No Nepal se nepales".

14:25 Ola, voltei depois de passar duas noites em Godawari. Foi maravilhoso! 'A primeira vista a aldeia parece-se com qualquer aldeia tradicional portuguesa. Mas depois de conhecer o interior das casas e compreender o dia-a-dia das pessoas que la' moram qualquer semelhanca se desvanece. A casa da familia onde fiquei era muito bonita e muito tradicional, toda feita em barro, com uma textura linda tanto nas paredes como no tecto e no chao. A cozinha e' totalmente idade media, toda a barro, apenas com um fogareiro minimo. Liiiiiiindo! O meu quarto, minimo com apenas uns 5m2 era liiindo tambem, apenas com uma cama (pequena demais para mim), um armario e uma mesinha. Abrindo a janela tinha uma vista linda e via montes de pessoas a passarem no caminho que fica 'a frente da casa. Dizia adeus e elas sorriam e diziam adeus de volta. Liiiindo. A comunicacao foi assustadora ao inicio pois a minha "mae" adoptiva nao falava ingles nenhum e, como eu era convidado, comia o Dal Bhat sozinho apenas com ela a servir-me e tinha de conseguir comunicar em nepales. Gulp. Mas enfim, la' me safei. A principio foi muito estranho estar a comer silenciosamente com uma pessoa sentada 'a minha frente a olhar para mim e 'a espera que eu terminasse ou que eu quisesse repetir. Primeiro senti que tinha de conversar e atrapalhei-me todo porque mesmo quando consigo fazer uma pergunta depois nao percebo nada da resposta, eh eh... mas depois la' me habituei 'a ideia de que mais valia estar calado e comer.

2004-03-09
08:29 Agora vou para Godawari (ou la' como se escreve isto) que e' a minha aldeia de treino. Nos proximos 3 dias vou andar por la' com o Biki - o meu guru (professor) - e onde vou continuar a aprender nepales e habituar-me aos costumes e habitos da vida com uma familia numa aldeia nepalesa. Vou tentar comecar a aprender a cozinhar um monte de coisas boas que tenho provado aqui e ali. Connosco vai uma nova voluntaria que chegou ontem e que e' meio escocesa meio indiana. Vou finalmente ficar isolado do mundo durante 3 dias. Tchau.

08:19 Ontem foi Bandha, ou seja, shutdown geral no Nepal, ou seja, todas as lojas estiveram fechadas e nao houve taxis nem autocarros e por isso toda a gente fica em casa sem poder fazer grande coisa. Os meus amigos convidaram-me para passar a tarde em casa deles. La' fomos. Eles ficaram o tempo todo a jogar cartas. E' um jogo bastante complicado que utiliza 3 baralhos e por isso nem tentei aprender e fiquei por la' a escrever o meu diario. 'As tantas o Shiva chegou e convidou-me para ir a casa dele. La' fomos e passei a tarde a conversar com ele, a aprender Nepali, a ouvir rock nepales e a ouvir os poemas em nepales que ele escreveu. Sao muito bonitos! Ele leu-os muito bistarki (devagar) e ia traduzindo frase por frase. Depois lia tudo seguido e eu la' ia percebendo uma palavra aqui e outra palavra ali. O Shilva e' uma daquelas pessoas com imensa sensibilidade, o que fez com que a experiencia de estar em casa dele (que e' apenas um quarto, claro) a olhar para ele e a ouvir os seus poemas seja absolutamente inesquecivel. 'As tantas ele disse: "Nuno, you will not forget me, ok?" e eu ia chorando ali. Claro que nao, Shiva.

2004-03-07
14:51 Penso que posso considerar que tenho um grupo de amigos em Kathmandu porque amanha e' novamente Bandha (nepali shutdown imposto pelos Maoistas) o Santosh convidou-me para passar a tarde com eles a jogar 'as cartas e a beber uns copos em casa deles. I'm very lucky = Ma saarei bagee mani manchhe!

14:50 Andar de mota em Kathmandu e' dos feitos mais bravos que conheco. Principalmente quando e' 'a pendura com as duas pernas para o mesmo lado!

14:30 Hoje o Biki foi acordar-me 'as 6h da manha porque os amigos dele (que conheci no Holi) me convidaram para ir com eles 'a universidade. Mal dormi mas nao podia desperdicar esta oportunidade. Tomei banho num instante e partimos. Apanhamos um autocarro que nao e' bem igual aos nossos (aqui o autocarro e' uma Van a cair de podre onde cabem umas 600 pessoas e as paragens nao estao marcadas ou entao nao as consegui identificar) e fomos ate' 'a universidade. Claro que no caminho iamos tendo uns 20 acidentes (11 choques frontais, 3 atropelamentos de criancas, 6 abalroamentos de motorizadas) mas correu tudo bem (como sempre!). Entrar na universidade foi uma experiencia unica pois as centenas de pessoas que la' estavam pararam TODAS a olhar para mim com curiosidade. O Biki apresentou-me dezenas de pessoas que me trataram MUITO bem!

Entramos numa sala de aulas onde me explicaram que ia assistir a uma aula de literatura nepalesa (sim, a serio, em nepales). Eram uns 100 ou 150 alunos e ficaram todos estaticos a olhar para mim e a rir. Fui para a fila do fundo e claro que nao percebi nada, mas foi ekdham ramrha! A seguir fomos para o recreio onde conheci mais umas dezenas de pessoas (montes de pessoas dirigiam-se ao nosso grupo so' para me conhecer). O Santosh - que e' um amigo do Biki muita divertido - comecou a apresentar-me raparigas (sethi) e a pedir-me para eu me declarar a elas. As sethi nepalesas sao extremamente timidas e ficavam todas atrapalhadas.

A seguir fomos a uma aula de jornalismo so' que cheguei atrasado e foi uma granda bronca porque o professor (que vim a saber ser um famoso jornalista daqui da cena nepalesa) me perguntou se eu era estudante e quando disse que nao questionou-me sobre porque e' que eu estava ali. Disse-lhe que tinha esperanca de poder assistir 'a aula dele e ele disse-me que hoje tudo bem mas que nao se podia tornar um habito (nao se preocupe stor!). Durante a aula comecou a falar em nepales mas volta nao volta escrevia ou dizia frases em ingles. Entao 'as tantas decidi arriscar e fazer uma pergunta. Subitamente ficou um silencio sepulcral na aula!! O professor nao so' achou a pergunta interessante como a sua resposta foi excelente e esclareceu de facto a minha duvida. Os 10 minutos seguintes da aula foram dados em ingles para que eu compreendesse e lentamente voltou ao nepales. O Santosh ficou aterrorizado e pediu-me para eu nao tornar a fazer mais perguntas. Afinal mais tarde o Biki disse-me que passei a ser o heroi da turma e que os seus amigos me ficaram a adorar por eu ter feito a pergunta que fiz e que lhe disseram para eu ir mais vezes!! Que cena! Depois da aula terminar fui ao conselho directivo agradecer ao professor ter-me deixado assistir 'a aula. Ele pediu-me desculpa por ter sido brusco ao inicio pois por vezes os alunos levam amigos e namoradas e perturbam a aula e ele quis impor o respeito. Apresentou-me os outros professores e o director da universidade e depois disse ao Biki e ao Mohash que tinha gostado de eu ter assistido 'a aula! YES!

A terceira aula foi "nepali social politics" onde o tema foi "differences between authority and power" e a conclusao e': ha' bom poder e mau poder. Quando o poder e' utilizado com legitimidade e' bom poder e chama-se autoridade. Eles queixam-se de que nas universidades nepalesas so' ha' aulas teoricas e que sentem falta de aulas praticas. No entanto sobre o tema "mau poder" penso que nao lhes deve ser dificil arranjar exercicios praticos!

14:26 Ainda nao passou uma semana das 10 ou 15 que ca' vou ficar. Mas ja' posso dizer com toda a seguranca que esta foi ate' agora a melhor viagem da minha vida.

2004-03-06
16:17 Tirei montes de fotos lindas durante o festival. A minha maquina fotografica digital (a reflex ficou em casa, claro!) levou com litros e litros de agua mas aguentou-se 'a bronca ('as tantas a lente tinha agua la' dentro e as fotos ficavam com manchas brancas, mas depois secou!). Infelizmente achei por bem esquecer-me do cabo de ligacao ao computador em Italia e por isso nao tenho forma de colocar as fotos online. Vou tentar comprar um cabo amanha ou algo do genero. Que merda...

16:03 Durante o Holi conheci um miudo de 12 anos chamado Subodh absolutamente querido, incrivelmente inteligente e fabulosamente fantastico. Conversamos imenso, ele oferecia-me sacos de plastico e explicava-me montes de coisas. Depois passamos por uma rua e ele apresentou-me a sua mae e o seu irmao de 6 anos. 'A tarde fartei-me de falar dele ao Biki e depois 'a noite farte-me de falar dele 'a Noemi. Aconteceu o incrivel: a Noemi foi convidada para jantar em casa de uns amigos do Asim e eles convidaram-me para ir tambem!! Qual nao foi o meu espanto quando a casa onde fui jantar era nada mais nada menos que a casa desse mesmo miudo????!!! Eu inesperei isto completamente. Mas... o Nepal e' assim! Jantamos Dal Bhat evidentemente. Ser convidado para jantar na casa de uma familia hindu e' das maiores honras que um estrangeiro pode ter. Fiquei completamente sem palavras. Quanto ao jantar... foi provavelmente a experiencia mais interessante que tive ate' agora. A casa deles e', como a do Asim: absolutamente minima com apenas uma cozinha e um quarto. Nao da' mesmo para descrever. Jantamos, eles ofereceram-nos uma colher mas nos preferimos comer the nepali way. Durante toda a refeicao tenho de estar com imensa atencao para nao quebrar nenhuma das imensas regras que tenho aprendido. O miudo continua a surpreender-me com a sua maturidade e a forma como explica tudo. o quarto e' do tamanho da minha casa de banho, no entanto depois do jantar fomos para la' conversar e 'as tantas contei e eramos 9 pessoas! Esta familia e' bastante rica pois ambos os filhos estao em escolas privadas. No entanto alguem a viver assim em Portugal provavelmente teria direito a aparecer no telejornal da TVI. Que cena. Sinto-me privilegiado por ter tido a oportunidade de jantar com a familia do Subodh. O irmao do Subodh tem 6 anos e e' hemofilico. Os remedios para a hemofilia sao muito caros no Nepal e eles tem imensa dificuldade para os comprar.

15:42 Hoje foi o Holi! Happy Holi!! Passei o dia todo a correr de um lado para o outro e a mandar agua e po' colorido a todas as pessoas que passavam e a gritar Happy Holi!!! Eu e quase toda a gente no Nepal. E' uma experiencia absolutamente incrivel. No final do dia estava TOTALMENTE ensopado e a minha t-shirt branca e as minhas calcas estavam TOTALMENTE randichangi (de multiplas cores)! E', digamos, uma mistura do Santo Antonio de Lisboa com o Carnaval da Bahia com o Cortejo Academico de Lisboa em 1993. No topo dos predios toda a gente atira sacos de agua ca' para baixo. Ca' em baixo temos saquinhos que enchemos nas pocinhas que encontramos na rua (do mais higienico que ha'!) e atiramos aos outros. Toda a gente ri o tempo todo e e' liiiindo! Diria mesmo... a puta da loucura. Agora a parte pior: 'as tantas apareceu a policia e comecou a bater em algumas pessoas. Porque? Pura e simplesmente porque sim, para mostrarem que tem poder. Eu esta com um grupo de amigos do Biki e um deles foi preso e enfiado dentro de um carro da policia. Passado um bocado fomos 'a esquadra tentar falar com os policias mas nem sequer nos deixaram aproximar indicando que tinhamos de nos afastar. Continuamos e passadas umas horas fomos la' e ja' pudemos entrar. Estavam la' uns 20 miudos que tinham sido presos provavelmente por razao nenhuma. Ficamos la' 'a espera que os soltassem. Eu, 'as escondidas e sem nenhum policia saber, consegui tirar varias fotos da esquadra por dentro e dos "prisioneiros". Depois libertaram-nos e tudo acabou em bem... O Biki disse "This is Nepal, what can we do!..." Com este tipo de experiencias comeco a perceber ao de leve a realidade de um pais em que o povo esta' oprimido por tudo o que e' lado. Que cena.

2004-03-05
16:17 Amanha vai ser um grande festival chamado Holi em que toda a gente se passeia pelas ruas com a cara e o corpo pintados de montes de cores com tika que e' aquele po' com que as indianas fazem a pinta no meio da testa e atiram sacos de agua uns aos outros. Deve ser uma especie de carnaval fora de epoca :-). Os nepaleses estao todos numa grande excitacao porque parece que a festa e' rija e muito divertida. O Biki e o Robin (ambos da INFO Nepal) convidaram-me para ir com os amigos deles. Estou ansioso! Vai ser o meu primeiro festival. Ha' imensos festivais durante o ano e sao, segundo dizem, indescritivelmente bonitos e muito divertidos, sendo uma das grandes atraccoes deste pais. Durante o tempo que ca' estou vou apanhar mais dois ou tres. Altamente. Antecipando o Holy, os miudos na rua ja' ha' dois dias que correm de um lado para o outro sempre com sacos de agua na mao. Eu ja' levei com varios sacos de agua em cima mas felizmente que os que me acertaram eram so' agua! Ha' bocado um amigo do Biki foi parar ao hospital pois dentro do saco de agua que lhe acertou vinha uma pedra.

07:04 Ontem estava no bar Via Via (que e' um show e tem musica excelente!) e resolvi ir 'a casa de banho. Quando comecei a fazer xixi na sanita a torneira do lavatorio comecou a deitar agua. Nao cheguei a compreender. Eu estava a inesperar que isto acontecesse.

06:41 E' incrivel: em cada pessoa que conheco encontro uma pessoa interessante, uma experiencia de vida rica e original e montes de coisas para aprender. Todos os dias passo horas 'a noite a beber copos ou a "fumar" e a ter conversas incriveis onde aprendo milhares de coisas fascinantes. Para aprender basta ouvir as experiencias que as outras pessoas tiveram nas suas viagens. Aqui a maior parte das pessoas ja' foi ao Tibete e ao Laos e ao Vietname e a Myanmar e 'a China e etc... Descrevem invariavelmente dezenas de situacoes e episodios lindos de morrer e que sao ao mesmo tempo grandes licoes de vida. O Luca (Italiano de Veneza) por exemplo, uma vez na India passou um dia por um orfanato com 70 criancas e resolveu convida'-las para ir ao cinema! E la' foram todos! O Fabian (Suico) por sua vez contou-me a sua viagem por zonas proibidas da China e como ele conseguiu convencer os policias que o queriam expulsar a ficar la' 4 dias e como um americano tentou o mesmo e foi expulso ao pontape' (eh eh)! O Fabian ja' veio 15 vezes ao Nepal, tem ca' negocios e ensinou-me milhares de coisas e vai dar-me contactos de confianca que me vao dar jeito para montes de coisas.

06:30 Ontem resolvi ir receber massagens Ayurveda. E' que eu faco coleccao de tipo de massagens diferentes e Ayurveda ainda nao tinha experimentado. Mesmo tendo regateado o preco para bem menos de metade depois soube que paguei o dobro do que devia ter pago. E' a vida. Recebi uma massagem de uma hora com oleos Ayurveda indianos. Fantastico. As tantas tornou-se um pouco constrangedor porque ela por vezes massajava mesmo junto aos meus orgaos genitais. Nao fiquei minimamente excitado porque a massagem nao tem nada de sensual, mas tive de me habituar 'a ideia. 'As tantas, passado montes de tempo de massagem ela perguntou se eu queria que ela me masturbasse. Hum... bolas... deve ter sido frustrante para ambos! Eu fiquei frustrado por pensar que ela me estivesse realmente a fazer uma massagem profissional. Ela deve ter ficado frustrada porque devia estar na expectativa de que a minha pila crescesse e nao cresceu. Disse-lhe que nao, que nao queria. Ela nao insistiu e acedeu a limitar-se 'a funcao de massagista ayurvedica e tudo teve um final feliz.

2004-03-04
07:21 Ja' ouvi alguem dizer "eles comem com as maos" referindo-se aos nepaleses de forma depreciativa. Nos em Portugal nao comemos com as maos porque somos mais civilizados... Nao!... Nos nao!... So' se for frango assado ou sandes ou hamburger ou batatas fritas ou ameijoas ou lagosta ou camarao ou fruta ou pizza ou sardinhas ou etc... Sim, porque de resto nos nao comemos com as maos!... Nao!...

06:58 Ontem jantei em casa do Asim que e' o chefe e fundador da ONG na qual sou voluntario. E' uma realidade totalmente impossivel de descrever! A casa dele e' absolutamente minima. No total deve ter 15m2. So' tem um quarto e uma cozinha onde vivem o Asim, a mulher e os seus dois filhos. Tanto o Asim como a mulher sao absolutamente adoraveis e muito acolhedores. A casa tem duas camas, uns armarios, tv e stereo e ha' duas semanas comprou finalmente um frigorifico. Quase ninguem tem frigorifico aqui. A casa-de-banho, segundo me disseram, e' preferivel nem visitar e nem duche tem. Nepali style. Tiram-se os sapatos 'a porta (como eu minha casa, yes!) Jantamos Dal Bhat e comemos com as maos sentados no chao com as pernas cruzadas e com os pratos e as panelas no chao. Dal Bhat e' o que se come praticamente todos os dias: arroz com vegetais e chili de lentilhas. E' bom mas dizem que passadas algumas semanas so' a comer isto enjoa. Porque sera'?. Nas casas nepalesas nao ha' qualquer tipo de privacidade MESMO! A privacidade como a conhecemos e' algo que nao faz qualquer sentido aqui no Nepal e estranham quando falamos nisso; o conceito de "agora quero estar sozinho um bocado" nao existe pura e simplesmente. Como vou morar 2 meses numa aldeia com uma familia nepalesa tenho de me habituar a esta ideia. No entanto, excepcionalmente por exigencia da ONG, os voluntarios tem um quarto com porta nas familias onde ficam hospedados. Ja' me deparei com imensas situacoes comportamentalmente chocantes, incompreensiveis ou inaceitaveis para a nossa cultura, mas e' importante aceitar mesmo sem compreender e acima de tudo nao cair no erro de fazer julgamentos pois, como me disse ontem o Jhon, as pessoas sao como os dedos das maos, todos diferentes, cada um com a sua funcao, mas todos necessarios.

06:51 Nao tem de ser razoavel para fazer sentido. Digo eu.

06:49 Inventei um novo verbo: INESPERAR. E' incrivel mas aqui em Kathmandu a cada minuto - nao! a cada segundo! - acontece uma coisa inesperada! Temos de estar sempre 'a espera do inesperado. Por isso senti necessidade de inventar este verbo: to unexpect. Aqui passo o tempo a inesperar!

06:47 Em momento nenhum senti qualquer tipo de perigo. Os nepaleses respeitam MESMO os turistas porque sabem que nos trazemos dinheiro. Faz sentido! Um dia podiam explicar isso aos brasileiros e ao resto da america latina onde um gajo morre mal sai 'a rua.

06:41 Ontem perdi-me completamente nas ruas de Kathmandu. Caminhei durante 4 horas sem parar, estive em sitios completamente inacreditaveis. As tantas conheci um rapaz nepales que me explicou montes de coisas e me levou a visitar um templo fabuloso onde vi os mortos a serem cremados. Ekdam thick chha! Depois fomos juntos almocar Momo que e' uma cena muita boa. Quer dizer... boa para aqueles que quando chegam a um pais nao desatam a correr para o MacDonalds. Mas esses... aqui... estavam lixados, eh eh... Eu nao queria mas o Jhon (o tal meu guia) insistiu em mostrar-me o caminho de volta para o meu hotel. Depois abandonei-o e tornei a perder-me pelas ruas. O mais fabuloso e' que depois de horas aos papeis consegui encontrar o caminho de regresso (perguntei bue vezes, claro!). Passei por montes de sitios incrivelmente pobres, por sitios atafulhados de nepaleses as compras, vi templos budistas e hindus a dar com um pau, vi cheiros e cheirei cores que nunca mais acabavam!

2004-03-03
06:44 Agora estou em Thamel. A entrada para este bairro e' feita atraves de um tunel com cerca de 1 metro de altura que e' considerado uma rua. Ha' ruas que so' se percebe que sao ruas se se olhar com atencao porque muitas vezes sao apenas mais uma porta ao lado de todas as outras portas. Programa do dia: vou caminhar ao calhas pelos milhares de ruas labirinticas ate' estar completamente perdido. Depois apanho um rikshaw e mostro-lhe o cartao do hotel para conseguir voltar. Adeus.

06:37 Ja' conheci imensa gente. Sao todos muito simpaticos. Os nepaleses sao um amor de pessoas. Ontem, depois de tomar um granda banho, fui beber um copo com a Noami ao Thamel que e' um bairro completamente lindo de morrer com dez bilioes de lojas e montes de bares. Fomos a um bar chamado Full Moon que tinha musica ao vivo. Os musicos tocavam ragas indianas: flauta, citara, tabla e violino. Liiiiindo! Descalcamo-nos 'a porta do bar e sentamo-nos em almofadinhas com mesinhas pequeninas a conversar e a ouvir as ragas. Estou em casa.

06:30 A viagem de taxi do aeroporto foi a experiencia de transito mais surreal da minha vida. E eu que julgava que ja' tinha visto transito caotico no Peru. Nao! O transito no Peru e' muito civilizado. Por muito que tente nao ha' palavras para o explicar aqui. Teoricamente conduz-se 'a esquerda, mas com os milhares de carros e carrinhos e motas e motinhas e bicicletas e triciclos e pessoas que se cruzam, e' dificil concluir de que lado se conduz apenas observando. Basicamente toda a gente buzina o tempo todo e esta' sempre na eminencia de chocar de frente com alguem. O meu taxi 'as tantas ultrapassou um autocarro que estava a ultrapassar um autocarro que estava a ultrapassar uma mota e ainda apitou para desviar as pessoas que estavam no passeio do lado oposto! Isto numa rua relativamente estreita. Nao, nao tive medo. Acho que nao tive medo por opcao mesmo. Ri-me por dentro e fiquei cheio de alegria.

06:25 Supostamente alguem da INFO Nepal (a ONG para a qual vou trabalhar como voluntario) deveria ter ido buscar-me ao aeroporto. Esperei... esperei... e nada. Dezenas de taxistas a insistir para ir com eles. 'As tantas la' me convenci que eles nao vinham e meti-me num taxi meio ao calhas sem saber o que lhe ia dizer. Afinal ele conhecia as pessoas da INFO Nepal e levou-me a um sitio onde lhes podia telefonar. Telefonei e foram buscar-me la'. Estava salvo! :) Afinal o que se tinha passado e' que ninguem fazia ideia de que eu ia chegar porque alguem se esqueceu!... Nao faz mal, esta' tudo ok porque isto e' o nEpAl!! Levaram-me para o meu hotel que, acreditem ou nao, ate' tem sanita e chuveiro com agua quente! O que e' que eu posso querer mais?

05:50 Depois de uma viagem MUITO cansativa de 20 horas cheguei a Kathmandu! A aproximacao foi linda porque se ve os Himalaias ao longe. E' liiiindo. Quando meti o primeiro pe' no chao senti uma felicidade que me fez esquecer o cansado que estava.

2004-02-29
22:22 Tchau, vou pó Nepal. Até ao verão.