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Diário do Nuno

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2009-08-01
10:42
No final de Junho fui a Stavanger, no sul da Noruega, visitar Preikestolen, um púlpito natural que sobressai da montanha a 604 metros de altitude em relação ao fjorde. É maravilhoso e aterrorizador como se pode ver pelas fotos aqui em baixo. Stavanger, a segunda maior cidade norueguesa é a mais rica visto ser ela o centro do petro-negócio. A cidade é tipo Aveiro, bonita e agradável e está cheia de vida agora que é verão.

Passámos a vida em esplanadas, a apanhar sol até às 21h bebendo copos de vinho branco a 8 euros cada um (a vida não é barata na Noruega). Esta foto da Kamila e de mim, tirada exactamente à meia noite, dá uma boa ideia do escuro que aqui (não) fica nesta altura do ano:

Midnight at Stavanger in June

Para visitar Preikestolen há que apanhar um ferry. Enganámos-nos no ferry e acidentalmente fizemos um maravilhoso passeio por Lysefjord, considerado um dos fjordes mais bonitos da Noruega. Neste passeio passámos mesmo por debaixo de Preikestolen e tivemos oportunidade de ver quão alto está:

Preikestolen seen from below

Preikestolen seen from below

No domingo apanhámos o ferry certo de Stavanger para Tau e depois o autocarro certo de Tau para um sítio onde começa a caminhada de duas horas que nos leva ao púlpito. E aqui está ele:

Preikestolen in Norway

Estar no púlpito é assustador. A medo, aproximei-me da beira e sentei-me com as pernas de fora. A paisagem circundante é tão bonita que, por momentos, me fez esquecer o medo de estar com 600 metros de ar debaixo dos pés.

My legs hanging from Preikestolen

É impossível estar ali sem estar alerta e sempre consciente da distância a que estamos da beira. Não há qualquer tipo de barreira de protecção nem altifalantes fanhosos a debitar "mind the gap" porque felizmente estamos na Noruega e não em países medrosos. Felizmente também, nunca houve acidentes e as únicas pessoas que saltam dali têm pára-quedas às costas. Mas custa a crer, sendo este local visitado por centenas de milhares de pessoas por ano.

My legs hanging from Preikestolen

2009-06-20
20:11
"Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto " - Kafka em Metamorfose

Não me sinto monstruoso nem sequer estou parecido com um insecto. Ainda assim, o início do conto "Metamorfose" ilustra bem o que senti na manhã do dia 15 de Maio, quando despertei de sonhos quietos e vi que a metade direita da minha cara tinha deixado de responder à minha vontade. Em rigor não vi logo ao acordar porque não doeu. O choque deu-se quando cheguei ao espelho e constatei que uma das portadas do meu frontispício tinha fechado.

Seguiu-se o pânico. Que aquela estranha apatia estava já a alastrar para outras partes de mim era quase certo. Antevi-me hortaliça. Voei para as urgências do hospital e depois de uma hora de espera diagnosticaram-me uma paralisia facial, aquilo a que os médicos, quando falam uns com os outros, chamam de Paresia de Bell. Fiquei a saber que o meu cérebro não tinha coalhado e que a paralisia não ia alastrar. Fiquei também a saber que ela não mata, só mói. Os médicos, embora a conheçam de gingeira, dela pouco sabem dizer. Não conhecem a causa - virose? lufada de ar frio? - e tão pouco se entendem quanto à cura - agasalhar? fisioterapia? anti-inflamatório? acupunctura? simplesmente esperar? "Pelo sim pelo não, não apanhe vento frio, nunca se sabe" parece ser consensual. E é afinal tão comum: acontece a uma pessoa em cada 5000. 4999 pessoas podem já acordar descansadas: fui eu.

Quando voltei para casa a pé constatei que o olho estava a arder cada vez mais. Que eu não o conseguia fechar já sabia, mas não imaginava o que isso implicava. Não sendo peixe, preciso da pálpebra para manter o olho molhado. Sem piscadelas o olho ardia cada vez mais. Não bastava ter-me transformado numa versão ambulatória de uma daquelas máscaras gregas trágico-cómicas. Nos dias seguintes foi uma luta para manter fechado um olho que não queria fechar. Comparado com isso, ter meio sorriso é canja.

No segundo dia acordei um novo Nuno. Agora eu era assim, de cara entorpecida. E pensei: agora eu sou este, sou assim, de cara entorpecida. E fui. E fui indo. E começaram as descobertas. Nos primeiros dias foi o estranhamento. Cada expressão gera uma impressão, e eu tinha a forte consciência de, ao sorrir, exprimir não um sorriso mas um esgar cínico (um sorriso da Nike). Corrompia a intenção da expressão e assim distorcia a impressão. Era como se me visse de fora. E via. Via-me a ver-me. Via-os a ver-me. Revia-me a ver outros com expressões corrompidas e revivia a distorção da impressão que tinha tido desses outros. E assim se passaram os primeiros dias, dias muito confusos em que lá fui tentando reajustar o meu ser ao seu novo estar. Até que encontrei a pala.

Foi aí que tudo mudou. Quando meti pela primeira vez a pala de pirata senti uma força poderosa a reanimar-me. Com a pala encontrei o personagem que estava destinado a viver por mim esta aventura. Quando ele chegou, eu, o Nuno, saí de cena e tornei-me espectador. Por sua vez, ele, o Nunc, tomou conta da situação. Ter legitimidade para usar uma pala de pirata é um privilégio, uma oportunidade rara que, a saber aproveitar, tem imensas vantagens. É um direito que toca a poucos, e tocou-me a mim. Andar na rua de pala no olho é encarnar inúmeras personagens literárias fascinantes. É não ser já só eu, é ser um monte de gente que nunca existiu e que tem agora em mim uma oportunidade para existir. Pelo menos aos meus olhos. Aos meus e principalmente aos olhos das crianças. É através delas que posso dizer: Eu fui pirata. Juro.

Munido da pala, atirei-me destemido à emocionante vida social de pirata figurativo. Pautada, claro está, pela fisioterapia, a acupunctura e os incontáveis exercícios de meias-caretas ao espelho. Nunca antes me tinha olhado tanto ao espelho. No início foi frustrante fazer todos aqueles exercícios sem ver um único movimento no lado direito da cara. Mas já fora avisado que durante uns tempos seria assim. Até que um dia algo mexeu. Era a bochecha. Passados uns dias foi a sobrancelha, primeiro para cima, depois para a esquerda. Hoje ainda nem tudo mexe, mas vai mexer. Ainda não rio como o Joker mas já sorrio como a Mona Lisa e já fecho o olho mais que os peixes. Há que ter paciência, ser pertinaz e pedir "espelho meu, quando me dás três quartos de careta?". Os médicos reconfortaram-me com uma previsão rigorosa do tempo que demora a recuperar totalmente: "não sei, entre duas semanas e dois anos ou talvez nunca, não sei, não sei...".

Mas nem tudo são vantagens. Os obscuros efeitos nefastos das corrente de ar frio espreitam-me a cada esquina e há que evitá-los porque, mesmo que sem o saberem explicar, é este o único ponto em que tanto eso como exotéricos cantam em uníssono: "Nunc, evita o vento (pelo sim pelo não)". Logo agora que tiraram a tampa invernosa a esta panela que é a Noruega; logo agora que o céu já é azul e o sol já é brilhante; logo agora que o trotamundos que há em mim estava prestes a brotar e ia dar corda às botas de montanha e meter pilhas novas nos patins. A verdejante Noruega chama-me e eu respondo que ainda não, que ainda não posso, que ela é ventosa, mas que está quase, que já vou.

2009-05-23
18:18

Nós, os Vinhos&Petiscos, vamos fazer um concerto outra vez. Vamos fingir fazer como fingíamos que fazíamos em 1996. Se te lembras, vem recordar-te; se não te lembras vem traumatizar-se.

Na altura descrevemo-nos assim: "Este jovem e divertido grupo, criado há cerca de 2 anos, pretende ser uma experiência de união entre duas sonoridades até aqui independentes: O grito de acasalamento do pelicano e a música ligeira portuguesa. Embora não chegue a traumatizar, o seu espectáculo deixa marcas profundas de alegria. Ah, o pelicano era mentira."

Nós é o Jorge Costa, o Mico da Câmara Pereira, o Miguel Monteiro, o Nuno Godinho, o Rui Melo e o Tiago Montes.

Será já esta quarta-feira dia 27 de Maio pela meia-noite e pouco no Bar Xafarix que fica em Santos, na rua D. Carlos I nº69.

Vem!

2009-05-22
16:08
Este inverno na Noruega andei a aprender a voar! Olha aqui eu a voar. E aqui também. Devagarinho se vai ao longinho. A época de esqui já acabou, claro. Mas constou-me que há uma estância de esqui de verão que deve estar mesmo a abrir e fica apenas a 4 horas de Oslo. As estâncias norueguesas têm uma coisa boa em relação às estâncias onde já fui em Espanha, França e Andorra. É que aqui eles não estão muito preocupados em evitar que as pessoas se matem, o que é óptimo. Odeio quando me impedem de morrer.

2009-03-19
12:59
É com alguma surpresa que constato que o se está a tornar obsoleto. Ainda há pouco tempo era para aqui, para ali, e agora, de cada vez que uso um fica sempre a saber a pouco e, na maior parte dos casos, acaba substituído pelo que está muito mais na moda. É assustador ver que até os smileys são de modas

A última vez que me tinha manifestado sobre smileys aqui no blog foi em 2001-04-13 e na altura constatei que a China ia conquistar o mundo, baseado no facto de o nosso alfabeto se estar a transformar no deles, por estar a ser invadido por emoticons. Na altura ainda não lhes chamavam smileys. Em verdade, na altura eu tinha um weblog porque a palavra blog ainda não tinha sido inventada. Foi há tanto tempo, vejam só, que :) ainda se escrevia :-).

No entanto, por cima de tudo isto, constato que a comunicação de hoje é voraz: ela devora a linguagem. Tal como, por razões comerciais, os filmes de Hollywood se foram precipitando do decote para o soutien e do soutien para as mamas, a linguagem escrita, que até pouco se contentava com o ponto e a vírgula, hoje não encontra pontos de exclamação que lhe cheguem para conseguir que lhe dêem atenção e tem que recorrer de novo à bonecada que há milhares de anos atrás tinha conseguido substituir.

2009-03-08
12:53
Olá blog. Já há um ano que não nos vemos. Estás bom?

Eu estou. Moro em Oslo.

Estou cá a trabalhar faz agora dois meses e estou a gostar. Oslo é uma cidade que podia ser pior mas que também podia ser melhor. Os noruegueses... bem, não vou começar já a generalizar de forma precipitada sobre todo um povo porque corro o risco de ser injusto. Vou antes esperar pelo próximo parágrafo.

Cá estamos. Os noruegueses são simpáticos mas são estranhos. São estranhos em primeiro lugar porque dentro de cada norueguês habita um par de noruegueses que nunca se encontraram e por isso não se conhecem mas se se conhecessem não se dariam nada bem. Um deles, calmo e reservado, está presente maioritariamente durante o dia. É extremamente organizado, pontual e arruma à esquadria tudo aquilo de que se aproxima. O outro aparece mais frequentemente nas noites de fim-de-semana. É caracterizado por um hálito constante a álcool, falta de equilíbrio, pouca coordenação motora e uma propensão natural para a violência. Embora habitem ambos o mesmo corpo, ouviram falar um do outro apenas por terceiros.

Os noruegueses são ursos bipolares.

Bem, em verdade até agora não tenho razões de queixa dos que já conheci. Não são nada ursos, mas não resisti a fazer esta piada.

Eu não sou hobofóbico, mas estes gajos abusam. São uns bêbedos. É, aliás, uma característica comum a toda a Escandinávia. Ao fim-de-semana à noite os bares fecham às 3h da manhã. De repente, a essa hora, as ruas enchem-se de bêbedos. Não como em Portugal em que talvez haja 1 bêbedo em cada 10 pessoas. Aqui toda a gente, praticamente sem excepção, está a cair para o lado. Uns encostados às paredes a vomitar, outros a cambalear em ziguezague pelos passeios; eles aos berros tipo trolls e elas tipo artistas de circo a tentarem equilibrar-se em cima das suas andas de 10cm acabando muitas vezes estateladas ao comprido na neve. Enquanto um português bebe por se divertir, um norueguês divertem-se por beber. É uma visão deprimente, quase apocalíptica, que lembra aqueles filmes de zombies com dezenas de mortos-vivos a babar e a arrastarem-se sem rumo em direcção ao juízo final.

O engraçado é que as lojas não podem vender álcool depois das 20h. E ao fim-de-semana é depois das 18h. Eu disse engraçado? Não é engraçado, é estúpido, absurdo e irritante. Que os noruegueses são uns bêbedos não é novidade nenhuma. O que eu não sabia é que são também uns grandes hipócritas em relação a isso. Um povo obsessivo com a mortificação etílica do corpo que no entanto se compraz com estas leis impostoras que não só não resolvem o problema como me impediram de ontem ter um par de cervejas para oferecer aos amigos que convidei para jantar. Faz lembrar Genève que evita noticiar os vários crimes e assassinatos que lá se dão para continuar com fama de ser uma das cidades mais seguras do mundo.

Lá fora neva. Como este inverno, diz-se por aqui, já não se via há uns anos. Nevou que se fartou, que é o que se quer. Está tudo muito contente com o São Pedro. Duas semanas atrás fazia frio a sério: -15ºC. Agora estão 0ºC, o que, parecendo frio para os padrões portugueses, não mata ninguém e até tem o seu encanto.

O frio no norte da Europa é menos frio que o frio de Portugal. Aos meus amigos que se julgam incapazes de sobreviver a um inverno aqui no norte tento explicar que sinto mais frio com os 11ºC do inverno português do que aqui mas nenhum me acredita. Se é da humidade, se é do vento ou se é da minha falta de jeito a agasalhar-me em Portugal, não sei. Além disso, contando já com mais de 2 anos de vida na Letónia, Suíça e Noruega, nunca caí doente. Já em Portugal...

Oslo é uma das únicas duas cidades do mundo em que se pode ir fazer esqui de metro. A outra é Vancouver e agora não é para aqui chamada. É verdade: apanho o metro a 300 metros daqui, saio em Voksenkollen e estou numa estância de esqui. É muito curioso ver dezenas e dezenas de pessoas de esquis em riste à espera do metro que as levará ao deslizante prazer das montanhas. A estância (http://www.tryvann.no/) não é nada de extraordinário, mas a cavalo-de-ferro dado não se olha o dente. Um pouco mais longe, a 2h de Oslo, fica outra estância mais decente que pretendo visitar num dos próximos fins-de-semana.

Também estou a planear ir ver uma Aurora Borealis. Tenho este sonho há anos e agora estou aqui mesmo ao lado. O complicado é ter de se voar até ao norte da Noruega para as ver e só serem visíveis quando está frio e o céu limpo. O frio não é difícil de conseguir, mais o céu limpo é. Ainda assim, Março é um dos melhores meses para as ver. Blog, deseja-me boa sorte!